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Filme: “1917” (2019), Sam Mendes

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No auge da Primeira Guerra Mundial, Sam Mendes posiciona o espectador diretamente na lama das trincheiras francesas com uma premissa de simplicidade brutal. Dois jovens cabos britânicos, Schofield e Blake, são incumbidos de uma missão que beira o suicídio: cruzar quilômetros de território recém-abandonado pelo inimigo, uma paisagem de morte e arame farpado, para entregar uma mensagem que pode impedir o massacre de um batalhão com 1600 homens. Um deles tem um motivo pessoal e urgente para correr, o outro é apenas o soldado escolhido para acompanhá-lo. O tempo é o adversário principal, e cada segundo que passa aproxima os seus compatriotas de uma armadilha cuidadosamente planejada.

A construção de 1917 se afasta das narrativas convencionais sobre conflitos armados ao adotar uma ousadia formal marcante. O filme é apresentado como um aparente e único plano sequência, uma façanha de coreografia e precisão técnica conduzida pela cinematografia de Roger Deakins. Esta escolha estilística não é um mero exibicionismo. A câmera funciona como uma entidade onipresente, um terceiro soldado nesta jornada, movendo-se com uma fluidez que elimina a distância segura entre a audiência e a ação. Não existem cortes para oferecer alívio, nem saltos temporais para abreviar o fardo da caminhada. O universo do filme se limita ao que se desdobra diante dos personagens, em tempo quase real, tornando a experiência da passagem do tempo algo físico e opressivo.

Esta imersão contínua e sem interrupções aproxima a obra de um conceito filosófico do ser-no-mundo, o Dasein heideggeriano, onde a existência é definida pela presença imediata e pela situação em que se está lançado. Schofield e Blake não são definidos por arcos dramáticos complexos ou por um passado detalhado, mas pela sua condição imediata: a tarefa, o movimento, a sobrevivência. A câmera não oferece interpretação, apenas testemunha sua jornada. Assim, o filme explora o agudo contraste entre a desolação industrial da guerra, com seus cadáveres e crateras, e os lampejos fugazes de humanidade ou natureza que persistem nas ruínas, seja no encontro com uma civil francesa e um bebê ou em uma canção melancólica que interrompe o silêncio de uma floresta.

No fim, 1917 se firma menos como um documento sobre a guerra e mais como uma análise sobre o movimento, a percepção e a persistência do corpo sob pressão extrema. A jornada é a própria estrutura narrativa. Sua força não reside em discursos inflamados ou em complexidades geopolíticas, mas na disciplina de manter o espectador atrelado a uma experiência singular, onde o avanço é medido em metros e a sobrevivência é a única ideologia possível.

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No auge da Primeira Guerra Mundial, Sam Mendes posiciona o espectador diretamente na lama das trincheiras francesas com uma premissa de simplicidade brutal. Dois jovens cabos britânicos, Schofield e Blake, são incumbidos de uma missão que beira o suicídio: cruzar quilômetros de território recém-abandonado pelo inimigo, uma paisagem de morte e arame farpado, para entregar uma mensagem que pode impedir o massacre de um batalhão com 1600 homens. Um deles tem um motivo pessoal e urgente para correr, o outro é apenas o soldado escolhido para acompanhá-lo. O tempo é o adversário principal, e cada segundo que passa aproxima os seus compatriotas de uma armadilha cuidadosamente planejada.

A construção de 1917 se afasta das narrativas convencionais sobre conflitos armados ao adotar uma ousadia formal marcante. O filme é apresentado como um aparente e único plano sequência, uma façanha de coreografia e precisão técnica conduzida pela cinematografia de Roger Deakins. Esta escolha estilística não é um mero exibicionismo. A câmera funciona como uma entidade onipresente, um terceiro soldado nesta jornada, movendo-se com uma fluidez que elimina a distância segura entre a audiência e a ação. Não existem cortes para oferecer alívio, nem saltos temporais para abreviar o fardo da caminhada. O universo do filme se limita ao que se desdobra diante dos personagens, em tempo quase real, tornando a experiência da passagem do tempo algo físico e opressivo.

Esta imersão contínua e sem interrupções aproxima a obra de um conceito filosófico do ser-no-mundo, o Dasein heideggeriano, onde a existência é definida pela presença imediata e pela situação em que se está lançado. Schofield e Blake não são definidos por arcos dramáticos complexos ou por um passado detalhado, mas pela sua condição imediata: a tarefa, o movimento, a sobrevivência. A câmera não oferece interpretação, apenas testemunha sua jornada. Assim, o filme explora o agudo contraste entre a desolação industrial da guerra, com seus cadáveres e crateras, e os lampejos fugazes de humanidade ou natureza que persistem nas ruínas, seja no encontro com uma civil francesa e um bebê ou em uma canção melancólica que interrompe o silêncio de uma floresta.

No fim, 1917 se firma menos como um documento sobre a guerra e mais como uma análise sobre o movimento, a percepção e a persistência do corpo sob pressão extrema. A jornada é a própria estrutura narrativa. Sua força não reside em discursos inflamados ou em complexidades geopolíticas, mas na disciplina de manter o espectador atrelado a uma experiência singular, onde o avanço é medido em metros e a sobrevivência é a única ideologia possível.

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