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Filme: “Tie Xi Qu: West of the Tracks – Part 3: Rails” (2002), Wang Bing

Em ‘Tie Xi Qu: West of the Tracks – Part 3: Rails’, a monumental conclusão da épica documental de Wang Bing, o foco se afunila para a artéria que ainda pulsa no coração do moribundo distrito industrial de Tiexi: a linha férrea. O filme acompanha o movimento lento e metódico de um trem de carga…


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Em ‘Tie Xi Qu: West of the Tracks – Part 3: Rails’, a monumental conclusão da épica documental de Wang Bing, o foco se afunila para a artéria que ainda pulsa no coração do moribundo distrito industrial de Tiexi: a linha férrea. O filme acompanha o movimento lento e metódico de um trem de carga que serpenteia por entre as ruínas de fábricas e as habitações precárias que cresceram à sua margem. A câmera de Wang documenta a vida de um pequeno grupo de pessoas cuja existência está intrinsecamente ligada a esses trilhos. Entre eles estão o velho Lao e seu filho, que vasculham os vagões em busca de carvão para sobreviver ao inverno rigoroso de Shenyang, e os poucos trabalhadores que ainda operam a linha, guardiões de uma infraestrutura que se torna obsoleta diante de seus olhos. A narrativa, se é que se pode chamar assim, é construída a partir da rotina, da espera e das conversas fragmentadas que revelam a aceitação pragmática de um fim inevitável.

Wang Bing utiliza sua câmera digital com uma paciência quase geológica, registrando a passagem do tempo não em eventos, mas na própria textura da imagem, no vapor que se dissipa no ar gélido e na ferrugem que consome o metal. A duração da obra é um elemento fundamental, forçando uma imersão na temporalidade dos seus personagens, um ritmo ditado pelo ranger das rodas do trem e pela lentidão de uma economia em desagregação. Mais do que um simples registro da desindustrialização chinesa, o filme opera em um campo que se aproxima da hauntologia, onde os trilhos não transportam apenas carvão, mas os espectros de um futuro prometido pelo projeto socialista que nunca se materializou por completo. O presente é assombrado por essa ausência.

O resultado é um documento cinematográfico de imenso peso histórico e humano. Ao abster-se de comentários ou sentimentalismos, Wang Bing permite que a própria realidade do distrito de Tiexi comunique sua magnitude. A obra não busca explicar as forças macroeconômicas que levaram ao colapso, mas sim observar de perto, com uma clareza inabalável, as consequências diretas na vida de quem foi deixado para trás. ‘Rails’ encerra a trilogia oferecendo um olhar sobre a pulsação final de um mundo, onde o som do trem se torna o melancólico compasso que marca o encerramento de uma era industrial e o início de uma incerteza silenciosa.


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