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Filme: “Us” (2019), Jordan Peele

Us, o segundo filme de terror de Jordan Peele, lança os espectadores em um cenário aparentemente familiar para subverter cada expectativa. A trama acompanha a família Wilson – Adelaide, Gabe e seus dois filhos, Zora e Jason – enquanto eles buscam um refúgio de verão na casa de praia da infância de Adelaide, em Santa…


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Us, o segundo filme de terror de Jordan Peele, lança os espectadores em um cenário aparentemente familiar para subverter cada expectativa. A trama acompanha a família Wilson – Adelaide, Gabe e seus dois filhos, Zora e Jason – enquanto eles buscam um refúgio de verão na casa de praia da infância de Adelaide, em Santa Cruz, Califórnia. A premissa de férias tranquilas é rapidamente desmantelada quando uma noite, figuras perturbadoras surgem na entrada da casa. Essas silhuetas, à primeira vista enigmáticas, revelam-se sósias exatas dos próprios Wilson, porém distorcidas em comportamento e intenção. São os Tethered, ou “Amarrados”, e sua chegada marca o início de um confronto visceral que se expande para além da casa, abrangendo todo o país.

A força de Us reside na sua exploração da dualidade e da identidade, transformando a invasão domiciliar em uma premissa para uma investigação mais profunda sobre o “outro”. As contrapartes surgem não como demônios de uma dimensão paralela, mas como manifestações tangíveis de algo reprimido, um lado sombrio que emerge do subsolo, literalmente. Este conceito eleva o filme de um mero exercício de horror para um thriller psicológico que desafia a percepção de quem somos, individual e coletivamente. A ameaça não vem de um monstro externo, mas de uma versão inquietante de si mesmo, forçando os personagens – e o público – a confrontar uma verdade desconfortável.

Peele utiliza o gênero de horror como um instrumento afiado para comentar sobre a sociedade americana, suas fissuras e as consequências de sua complacência. A narrativa pincela questões de privilégio, desigualdade e a invisibilidade de certas camadas sociais, transformando os Tethered em uma representação perturbadora daqueles que foram esquecidos ou marginalizados. A tensão é construída meticulosamente através de performances cativantes, especialmente a de Lupita Nyong’o, que encarna com maestria tanto Adelaide quanto sua perturbadora sósia, Red. A direção de Peele é hábil em manipular o suspense e entregar cenas impactantes sem recorrer a artifícios fáceis.

A obra de Peele parece articular uma profunda meditação sobre as consequências de uma negação coletiva, sugerindo que aquilo que a sociedade tenta suprimir ou esquecer, eventualmente emerge de forma incontrolável. Us instiga o pensamento sobre a nossa própria responsabilidade em criar e ignorar as “sombras” que habitam o inconsciente coletivo. O filme provoca uma reflexão duradoura, ressoando com um eco que perdura muito depois que os créditos finais sobem, questionando a natureza do controle, da liberdade e do preço da amnésia social.


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