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Filme: “Vitalina Varela” (2019), Pedro Costa

Vitalina Varela, a figura central do aclamado filme de Pedro Costa, emerge de um avião em Lisboa, apenas para descobrir que chegou três dias após o funeral do seu marido, Joaquim. Ele partira para Portugal há décadas, em busca de uma vida melhor, deixando para trás a esposa e o vilarejo em Cabo Verde. O…


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Vitalina Varela, a figura central do aclamado filme de Pedro Costa, emerge de um avião em Lisboa, apenas para descobrir que chegou três dias após o funeral do seu marido, Joaquim. Ele partira para Portugal há décadas, em busca de uma vida melhor, deixando para trás a esposa e o vilarejo em Cabo Verde. O que Vitalina encontra não é a nova vida que ele supostamente construiu, mas sim os escombros de um bairro em demolição, Fontainhas, onde a comunidade de imigrantes vive em precárias condições. A jornada de Vitalina pelo submundo da imigração e da memória torna-se a espinha dorsal de uma obra cinematográfica que explora a persistência do passado e a invisibilidade de vidas esquecidas.

O filme desdobra-se num ritmo deliberado, quase espectral, enquanto Vitalina navega pelos corredores sombrios e vielas decrépitas que outrora foram o lar de Joaquim. Ela se depara com os poucos remanescentes da vida dele – objetos, lembranças e os rostos daqueles que o conheceram, incluindo o próprio Pedro Costa no papel de um padre, uma figura igualmente atormentada. A busca de Vitalina não é apenas por uma sepultura ou por bens, mas por uma compreensão da vida secreta que seu marido viveu longe dela, e por uma forma de enterrar não apenas o corpo, mas a dor do abandono e a complexidade de uma relação interrompida pelo tempo e pela distância. A narrativa é construída através de fragmentos, de diálogos sussurrados e de imagens que parecem esculpidas na escuridão, com a luz a realçar apenas o essencial, conferindo a cada cena uma profundidade quase pictórica.

Pedro Costa emprega uma cinematografia de chiaroscuro que transforma os espaços claustrofóbicos e as ruínas em cenários de uma pungente tragédia pessoal e coletiva. Cada quadro é meticulosamente composto, evocando uma sensação de atemporalidade e a gravidade de uma existência à margem. A interpretação de Vitalina Varela, que encarna uma versão de sua própria história, confere ao filme uma autenticidade visceral, diluindo as fronteiras entre a performance e a pura experiência humana. A forma como o filme lida com a memória não é como um mero recordar, mas como uma presença palpável, quase material. O passado, neste contexto, não é apenas um evento concluído, mas uma força contínua que atua no presente, moldando a realidade e a percepção dos personagens, uma manifestação da complexidade temporal da experiência humana. É uma obra que não se entrega a sentimentalismos, preferindo abordar a dignidade na adversidade e a beleza austera da resiliência, convidando à contemplação sobre o que significa viver e morrer num mundo onde muitos são relegados à invisibilidade.


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