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Filme: “Werner Herzog Eats His Shoe” (1980), Les Blank

Uma aposta selada entre dois cineastas define o ponto de partida de ‘Werner Herzog Eats His Shoe’, o curta-metragem documental de Les Blank que captura um dos momentos mais singulares da história do cinema. O acordo era simples e absurdo: se o então aspirante a diretor Errol Morris conseguisse finalizar seu primeiro longa, ‘Gates of…


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Uma aposta selada entre dois cineastas define o ponto de partida de ‘Werner Herzog Eats His Shoe’, o curta-metragem documental de Les Blank que captura um dos momentos mais singulares da história do cinema. O acordo era simples e absurdo: se o então aspirante a diretor Errol Morris conseguisse finalizar seu primeiro longa, ‘Gates of Heaven’, o aclamado realizador alemão Werner Herzog comeria o próprio sapato. Morris cumpriu sua parte, e Herzog, um homem de palavra, transformou o pagamento da dívida em um evento público, uma aula performática sobre a urgência e a materialidade da arte.

O documentário de Les Blank registra o cumprimento da promessa com uma proximidade quase etnográfica. Acompanhamos Herzog enquanto ele cozinha sua bota de couro em uma panela com alho, ervas e caldo de galinha, diante de uma plateia curiosa no Pacific Film Archive de Berkeley. O ato em si, o de cortar e mastigar pedaços da bota com o auxílio de uma tesoura de aves, é o clímax visual, mas o verdadeiro núcleo do filme reside nos monólogos de Herzog. Entre uma garfada e outra, ele articula uma filosofia de cinema que preza a ação e a experiência física em detrimento da esterilidade intelectual. Ele não está apenas comendo um sapato; está a demonstrar de forma visceral a importância de levar as ideias ao limite, de materializar metáforas e de lutar contra o que ele chama de “pobreza de imagens” que domina a cultura.

O que poderia ser apenas um ato de exibicionismo revela-se um manifesto sobre a integridade e a natureza da criação cinematográfica. A ação de Herzog é uma forma de práxis, onde a teoria e a prática se fundem num gesto indivisível. Ele argumenta que os cineastas devem procurar por “imagens adequadas”, imagens que ainda não existem e que possuem uma verdade intrínseca, mesmo que para isso seja necessário mergulhar no ridículo. O filme de Blank, com seu estilo direto e sem adornos, capta perfeitamente essa ideia. A câmera não julga, apenas observa, permitindo que a força do conceito de Herzog se desdobre naturalmente.

Dessa forma, ‘Werner Herzog Eats His Shoe’ opera como um documento essencial sobre uma ética de trabalho que valoriza a ação sobre a retórica. É um registro sobre mentoria, coragem artística e a dedicação quase insana que a produção de uma obra pode exigir. O ato de consumir o sapato torna-se uma analogia para o próprio processo de fazer um filme: digerir o indigesto, o difícil e o aparentemente impossível para criar algo com substância. A obra de Les Blank oferece um vislumbre fundamental não apenas da personalidade de Herzog, mas do combustível que alimenta a paixão por um cinema que se recusa a ser meramente discursivo.


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