Num armazém parisiense, o ar é denso com desconfiança mútua. Um grupo de especialistas em operações clandestinas, cada um com um passado nebuloso e um conjunto de habilidades letais, é reunido por uma enigmática intermediária irlandesa. O objetivo: interceptar e adquirir uma maleta de metal, fortemente protegida, cujo conteúdo permanece um mistério absoluto. Robert De Niro interpreta Sam, um americano que se apresenta como um ex-agente da CIA, cuja calma e método analítico escondem uma perícia tática formidável. Ao seu lado, mas nunca totalmente alinhado, está Vincent, interpretado por Jean Reno, um organizador francês pragmático que conhece os meandros do submundo europeu. O que começa como um contrato de trabalho de alto risco rapidamente se desdobra em uma teia de traições e alianças fluidas, onde a única regra é a sobrevivência e a única lealdade é para com o próximo pagamento.
O título do filme de John Frankenheimer não é uma mera escolha estilística, mas a própria tese da obra. Estes homens são ‘Ronin’, samurais sem mestre, vestígios de uma Guerra Fria que terminou e os deixou sem uma bandeira para servir. A sua identidade não reside mais numa causa nacional, mas na pureza da sua profissão. O roteiro, com a precisão cirúrgica de David Mamet, foca-se no processo, no jargão profissional, nas perguntas de teste para verificar identidades e na desconstrução de qualquer pretensão ideológica. A questão sobre “a cor do barracão de barcos em Hereford” é mais reveladora sobre quem são estas pessoas do que qualquer flashback. A busca pela maleta é o motor da trama, mas o verdadeiro combustível do filme é a interação entre estes indivíduos que se definem exclusivamente pela sua competência e por um código de honra pragmático, nascido não da moralidade, mas da necessidade de se manter vivo em um jogo sem regras claras.
Frankenheimer filma as perseguições de carro em Nice e Paris não como interlúdios de adrenalina, mas como extensões narrativas da tensão psicológica. Em vez do espetáculo digitalizado que se tornaria padrão, a abordagem é brutalmente analógica e tátil. O peso dos sedãs europeus, o som do metal contra o asfalto e a geografia urbana tornam-se personagens. Cada curva, cada manobra no tráfego contrário, é uma decisão tática, um reflexo da mentalidade dos condutores. A direção imerge o espectador na fisicalidade da ação, transformando as ruas da Europa em um tabuleiro de xadrez onde a perícia ao volante é tão crucial quanto a estratégia militar. É um cinema de ofício, tanto na frente quanto atrás das câmeras.
No final, ‘Ronin’ se revela menos sobre o que está dentro da maleta e mais sobre a condição existencial dos homens que a perseguem. É um estudo sobre profissionalismo em um vácuo moral, onde a confiança é uma moeda mais rara que a própria vida. O filme opera com uma inteligência fria, apresentando um mundo onde a competência é a única virtude e a sobrevivência é a única recompensa. A sua relevância perdura não pela complexidade do seu enredo de espionagem, mas pela clareza com que retrata um tipo específico de indivíduo: o especialista cuja maior batalha é encontrar um propósito quando a guerra para a qual foi treinado já não existe.




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