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Filme: “A Ópera dos Três Vinténs” (1931), G.W. Pabst

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Na Londres vitoriana de G.W. Pabst, o crime não é uma anomalia, é um modelo de negócio tão legítimo quanto qualquer outro. Aqui, a moralidade se liquefaz na névoa e na lama das ruas, e o carismático Mackie Navalha, um empresário do submundo, comanda seu império de pequenos delitos com a eficiência de um industrial. A engrenagem social começa a ranger quando ele se casa secretamente com Polly, a filha de Jonathan Peachum. Peachum não é um pai preocupado com a honra da filha, mas um competidor furioso. Seu próprio negócio, uma agência que licencia e equipa mendigos para extrair a máxima piedade e lucro dos transeuntes, vê no casamento uma fusão hostil de mercados. O conflito que se desenha não é sobre certo e errado, mas sobre controle de território e fatias de poder numa economia onde a única lei é a da oferta e da procura.

A retaliação de Peachum é uma aula de manipulação social. Ele ameaça inundar as ruas de Londres com seu exército de falsos aleijados e miseráveis precisamente durante o desfile da coroação da Rainha, um ato que exporia a hipocrisia da cidade e constrangeria o poder público. Essa chantagem coloca o chefe de polícia, Tiger Brown, numa posição delicada. Amigo de infância e parceiro de negócios de Mackie Navalha, sua lealdade, que se mede em propinas e favores, é testada contra a pressão de manter a ordem burguesa. Enquanto Mackie tenta liquidar seus ativos e fugir, as canções da trilha dissonante e inesquecível de Kurt Weill pontuam a perseguição, expondo os pensamentos mais pragmáticos e cínicos de cada personagem.

Ao adaptar a peça de Bertolt Brecht, G.W. Pabst subtrai parte do distanciamento cênico e mergulha a sátira numa atmosfera de realismo sombrio, própria do cinema alemão da República de Weimar. O filme articula, com uma clareza cortante, um princípio quase marxista: a mercantilização de todas as esferas da vida. A miséria para Peachum não é uma condição, é matéria prima; as deformidades de seus mendigos são capital. Cada relacionamento é uma transação, cada aliança é temporária e cada princípio é flexível. A observação que a obra faz sobre a fusão entre o poder estatal, o capital financeiro e as operações criminosas organizadas permanece com uma pertinência desconcertante. Não há uma estrutura a ser derrubada, apenas um sistema a ser melhor explorado por quem for mais astuto.

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Na Londres vitoriana de G.W. Pabst, o crime não é uma anomalia, é um modelo de negócio tão legítimo quanto qualquer outro. Aqui, a moralidade se liquefaz na névoa e na lama das ruas, e o carismático Mackie Navalha, um empresário do submundo, comanda seu império de pequenos delitos com a eficiência de um industrial. A engrenagem social começa a ranger quando ele se casa secretamente com Polly, a filha de Jonathan Peachum. Peachum não é um pai preocupado com a honra da filha, mas um competidor furioso. Seu próprio negócio, uma agência que licencia e equipa mendigos para extrair a máxima piedade e lucro dos transeuntes, vê no casamento uma fusão hostil de mercados. O conflito que se desenha não é sobre certo e errado, mas sobre controle de território e fatias de poder numa economia onde a única lei é a da oferta e da procura.

A retaliação de Peachum é uma aula de manipulação social. Ele ameaça inundar as ruas de Londres com seu exército de falsos aleijados e miseráveis precisamente durante o desfile da coroação da Rainha, um ato que exporia a hipocrisia da cidade e constrangeria o poder público. Essa chantagem coloca o chefe de polícia, Tiger Brown, numa posição delicada. Amigo de infância e parceiro de negócios de Mackie Navalha, sua lealdade, que se mede em propinas e favores, é testada contra a pressão de manter a ordem burguesa. Enquanto Mackie tenta liquidar seus ativos e fugir, as canções da trilha dissonante e inesquecível de Kurt Weill pontuam a perseguição, expondo os pensamentos mais pragmáticos e cínicos de cada personagem.

Ao adaptar a peça de Bertolt Brecht, G.W. Pabst subtrai parte do distanciamento cênico e mergulha a sátira numa atmosfera de realismo sombrio, própria do cinema alemão da República de Weimar. O filme articula, com uma clareza cortante, um princípio quase marxista: a mercantilização de todas as esferas da vida. A miséria para Peachum não é uma condição, é matéria prima; as deformidades de seus mendigos são capital. Cada relacionamento é uma transação, cada aliança é temporária e cada princípio é flexível. A observação que a obra faz sobre a fusão entre o poder estatal, o capital financeiro e as operações criminosas organizadas permanece com uma pertinência desconcertante. Não há uma estrutura a ser derrubada, apenas um sistema a ser melhor explorado por quem for mais astuto.

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