Num beco de Nova Iorque, um homem acorda sem memória, uma tábula rasa humana com um passado que o persegue fisicamente. Este é o ponto de partida de Amateur, o thriller existencial de Hal Hartley que se desenrola menos como um mistério e mais como um quebra-cabeças de identidades fragmentadas. O amnésico, Thomas (Martin Donovan, o ator fetiche de Hartley), encontra refúgio com Isabelle (Isabelle Huppert), uma ex-freira que agora ganha a vida escrevendo pornografia com uma precisão literária desconcertante. A dinâmica entre os dois estabelece o tom do filme: uma busca por conexão num mundo de desapego, onde a intimidade é negociada através de diálogos estilizados e uma honestidade brutal que beira o absurdo. A sua tentativa de reconstruir a vida de Thomas rapidamente se complica com a chegada de Sofia (Elina Löwensohn), uma atriz pornográfica que se apresenta como esposa dele e uma ninfomaníaca confessa, e um contabilista criminoso que procura uma disquete com informações incriminatórias.
O que se segue é uma comédia de erros sobre crime e redenção, filmada com a geometria precisa e a paleta de cores primárias que definiram o cinema independente dos anos 90. Hartley não está interessado na mecânica do suspense tradicional. Em vez disso, ele usa a estrutura de um filme noir para examinar a maleabilidade da identidade. Se um homem não se lembra dos seus crimes, ele ainda é culpado por eles? A amnésia de Thomas não é apenas um artifício narrativo, mas uma premissa filosófica sobre a consciência e a responsabilidade. A performance dos atores, deliberadamente inexpressiva e coreografada, cria uma distância que força o espectador a focar-se na linguagem e na alienação dos personagens, que falam sobre as suas emoções mais profundas com a mesma impassibilidade com que pediriam um café.
Amateur é um exercício de estilo profundamente cerebral, mas com uma pulsação humana peculiar sob a sua superfície fria. A busca de Thomas pela sua identidade perdida espelha a busca de Isabelle por um propósito para além do sagrado e do profano, e a de Sofia por uma libertação que talvez a sua condição auto-diagnosticada não permita. Hartley orquestra um bailado de almas perdidas que colidem e se repelem no cenário urbano de Nova Iorque, transformando a violência e a exploração em elementos de uma equação quase matemática sobre a condição humana. É uma obra que se move ao seu próprio ritmo, uma análise clínica e, paradoxalmente, compassiva sobre a dificuldade de recomeçar quando o passado insiste em bater à porta, mesmo que não nos lembremos de lhe ter dado a chave.









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