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Filme: “Judex” (1963), Georges Franju

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Georges Franju desmonta e reconstrói o serial de 1916 de Louis Feuillade não como uma réplica, mas como uma evocação fantasmagórica. A trama se articula em torno de uma ameaça pública: o banqueiro corrupto Favraux recebe uma carta do enigmático Judex, uma figura mascarada que promete executá-lo em meio a um baile de gala. A promessa se cumpre de forma espetacular, e a aparente morte do milionário desencadeia uma disputa por sua vasta fortuna, colocando sua inocente filha, Jacqueline, na mira da pérfida governanta Diana Monti e seu cúmplice. O que se desenrola a partir daí é menos um thriller de vingança e mais uma sucessão de quadros vivos, onde a lógica narrativa cede espaço para uma beleza fria e poética.

Franju observa seus personagens com uma distância calculada, como se fossem figuras de um diorama animado. Judex, interpretado com uma rigidez deliberada por Channing Pollock, é mais um conceito do que um homem de ação. Ele opera a partir de um covil subterrâneo, comanda um exército de agentes de capa preta e usa pombos como mensageiros, mas suas intervenções são frequentemente hesitantes, quase relutantes. Seu propósito parece ser mais a manutenção de uma certa ordem estética do que a aplicação de uma justiça passional. O verdadeiro motor do filme reside no conflito entre a pureza etérea de Jacqueline, interpretada pela musa de Franju, Édith Scob, e a vilania pragmática e corporal de Diana Monti, uma mulher que se move com a agilidade de um predador em seu icônico traje preto.

O filme opera quase como um simulacro, um sistema de signos que aponta para o cinema mudo, mas que esvazia sua energia pulp original para substituí-la por uma contemplação formalista. Franju não está interessado na urgência do folhetim, mas na beleza plástica de suas convenções: a máscara, a capa, o esconderijo secreto, a donzela em perigo. Cada composição em preto e branco é imaculada, cada gesto é coreografado, transformando o suspense em um balé sonâmbulo. As cenas mais memoráveis são aquelas que flertam com o surrealismo, como a aparição de Diana Monti no telhado ou a festa com convidados usando máscaras de pássaros, momentos que congelam a narrativa para entregar pura imagem poética.

Judex é, portanto, um objeto cinematográfico singular. Uma obra que se debruça sobre a memória de um gênero para analisar sua forma e sua superfície. Não busca o impacto visceral do cinema de crime, mas a ressonância de um sonho lúcido, onde os arquétipos do cinema de aventura são dispostos em uma nova e hipnótica configuração. A experiência é a de assistir a uma fantasia gótica filtrada por uma inteligência moderna e melancólica, um estudo sobre o poder duradouro dos ícones visuais e a própria natureza performática da moralidade no cinema.

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Georges Franju desmonta e reconstrói o serial de 1916 de Louis Feuillade não como uma réplica, mas como uma evocação fantasmagórica. A trama se articula em torno de uma ameaça pública: o banqueiro corrupto Favraux recebe uma carta do enigmático Judex, uma figura mascarada que promete executá-lo em meio a um baile de gala. A promessa se cumpre de forma espetacular, e a aparente morte do milionário desencadeia uma disputa por sua vasta fortuna, colocando sua inocente filha, Jacqueline, na mira da pérfida governanta Diana Monti e seu cúmplice. O que se desenrola a partir daí é menos um thriller de vingança e mais uma sucessão de quadros vivos, onde a lógica narrativa cede espaço para uma beleza fria e poética.

Franju observa seus personagens com uma distância calculada, como se fossem figuras de um diorama animado. Judex, interpretado com uma rigidez deliberada por Channing Pollock, é mais um conceito do que um homem de ação. Ele opera a partir de um covil subterrâneo, comanda um exército de agentes de capa preta e usa pombos como mensageiros, mas suas intervenções são frequentemente hesitantes, quase relutantes. Seu propósito parece ser mais a manutenção de uma certa ordem estética do que a aplicação de uma justiça passional. O verdadeiro motor do filme reside no conflito entre a pureza etérea de Jacqueline, interpretada pela musa de Franju, Édith Scob, e a vilania pragmática e corporal de Diana Monti, uma mulher que se move com a agilidade de um predador em seu icônico traje preto.

O filme opera quase como um simulacro, um sistema de signos que aponta para o cinema mudo, mas que esvazia sua energia pulp original para substituí-la por uma contemplação formalista. Franju não está interessado na urgência do folhetim, mas na beleza plástica de suas convenções: a máscara, a capa, o esconderijo secreto, a donzela em perigo. Cada composição em preto e branco é imaculada, cada gesto é coreografado, transformando o suspense em um balé sonâmbulo. As cenas mais memoráveis são aquelas que flertam com o surrealismo, como a aparição de Diana Monti no telhado ou a festa com convidados usando máscaras de pássaros, momentos que congelam a narrativa para entregar pura imagem poética.

Judex é, portanto, um objeto cinematográfico singular. Uma obra que se debruça sobre a memória de um gênero para analisar sua forma e sua superfície. Não busca o impacto visceral do cinema de crime, mas a ressonância de um sonho lúcido, onde os arquétipos do cinema de aventura são dispostos em uma nova e hipnótica configuração. A experiência é a de assistir a uma fantasia gótica filtrada por uma inteligência moderna e melancólica, um estudo sobre o poder duradouro dos ícones visuais e a própria natureza performática da moralidade no cinema.

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