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Filme: “O Caixão Vazio” (2014), Jeremy Lovering

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Tudo começa nas montanhas do Butão, em 1995, com um prólogo que funciona menos como um susto e mais como a instalação de um vírus silencioso. O que acontece ali, com um grupo de amigos, estabelece a mitologia sombria que percorrerá toda a narrativa. O filme de Jeremy Lovering, ‘O Caixão Vazio’, então salta para o Missouri dos dias atuais, onde somos apresentados a James Lasombra, um ex-policial que opera uma loja de segurança e carrega o peso de uma tragédia pessoal. Quando a filha de uma amiga, a adolescente Amanda, desaparece, ele se vê compelido a investigar. As pistas iniciais são poucas: um bilhete enigmático deixado por ela e o sussurro de uma lenda urbana local sobre o “Empty Man”, uma figura que pode ser invocada ao soprar em uma garrafa vazia em uma ponte. O que se inicia como uma busca convencional por uma pessoa desaparecida gradualmente se desfaz, transformando-se em uma descida por uma toca de coelho de paranoia e conspiração.

A investigação de Lasombra o conduz ao Instituto Pontifex, um grupo que se assemelha a um culto com uma filosofia peculiar sobre a realidade e a percepção. É neste ponto que ‘O Caixão Vazio’ revela sua verdadeira natureza. A obra de Lovering abandona a estrutura de um thriller policial para abraçar as convenções do terror cósmico e do horror existencial. A ameaça deixa de ser um simples monstro ou uma entidade sobrenatural e se torna algo muito mais abstrato e perturbador: uma ideia contagiosa, um conceito que ganha poder através da crença coletiva. A atmosfera do filme é construída com uma paciência notável, utilizando longos planos, silêncios opressivos e uma cinematografia que enfatiza a vastidão e o vazio dos cenários, seja uma paisagem rural ou um corredor escuro. A tensão não vem de sobressaltos, mas da lenta e inexorável compreensão de que as regras da realidade, como o protagonista as entende, estão sendo sistematicamente desmontadas.

O longa explora de forma eficaz o conceito de tulpa, uma construção mental que, segundo algumas doutrinas místicas, pode adquirir forma e autonomia no mundo físico através da concentração e da fé. O “Empty Man” não é algo que se caça com uma arma, mas um vazio que precisa ser preenchido, um receptáculo para as angústias, medos e, principalmente, para a crença de uma comunidade. A performance de James Badge Dale é fundamental para ancorar essa premissa filosófica. Seu Lasombra é um homem já esvaziado pela dor, tornando-se o canal perfeito para essa manifestação. O filme se aprofunda em uma forma de niilismo aterrorizante, sugerindo que na ausência de um significado inerente, a mente humana é capaz de projetar e dar à luz suas próprias verdades e seus próprios demônios. A obra não se preocupa em explicar cada detalhe de sua mitologia, preferindo deixar que a lógica interna do seu universo se revele através de uma atmosfera de crescente desespero e inevitabilidade.

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Tudo começa nas montanhas do Butão, em 1995, com um prólogo que funciona menos como um susto e mais como a instalação de um vírus silencioso. O que acontece ali, com um grupo de amigos, estabelece a mitologia sombria que percorrerá toda a narrativa. O filme de Jeremy Lovering, ‘O Caixão Vazio’, então salta para o Missouri dos dias atuais, onde somos apresentados a James Lasombra, um ex-policial que opera uma loja de segurança e carrega o peso de uma tragédia pessoal. Quando a filha de uma amiga, a adolescente Amanda, desaparece, ele se vê compelido a investigar. As pistas iniciais são poucas: um bilhete enigmático deixado por ela e o sussurro de uma lenda urbana local sobre o “Empty Man”, uma figura que pode ser invocada ao soprar em uma garrafa vazia em uma ponte. O que se inicia como uma busca convencional por uma pessoa desaparecida gradualmente se desfaz, transformando-se em uma descida por uma toca de coelho de paranoia e conspiração.

A investigação de Lasombra o conduz ao Instituto Pontifex, um grupo que se assemelha a um culto com uma filosofia peculiar sobre a realidade e a percepção. É neste ponto que ‘O Caixão Vazio’ revela sua verdadeira natureza. A obra de Lovering abandona a estrutura de um thriller policial para abraçar as convenções do terror cósmico e do horror existencial. A ameaça deixa de ser um simples monstro ou uma entidade sobrenatural e se torna algo muito mais abstrato e perturbador: uma ideia contagiosa, um conceito que ganha poder através da crença coletiva. A atmosfera do filme é construída com uma paciência notável, utilizando longos planos, silêncios opressivos e uma cinematografia que enfatiza a vastidão e o vazio dos cenários, seja uma paisagem rural ou um corredor escuro. A tensão não vem de sobressaltos, mas da lenta e inexorável compreensão de que as regras da realidade, como o protagonista as entende, estão sendo sistematicamente desmontadas.

O longa explora de forma eficaz o conceito de tulpa, uma construção mental que, segundo algumas doutrinas místicas, pode adquirir forma e autonomia no mundo físico através da concentração e da fé. O “Empty Man” não é algo que se caça com uma arma, mas um vazio que precisa ser preenchido, um receptáculo para as angústias, medos e, principalmente, para a crença de uma comunidade. A performance de James Badge Dale é fundamental para ancorar essa premissa filosófica. Seu Lasombra é um homem já esvaziado pela dor, tornando-se o canal perfeito para essa manifestação. O filme se aprofunda em uma forma de niilismo aterrorizante, sugerindo que na ausência de um significado inerente, a mente humana é capaz de projetar e dar à luz suas próprias verdades e seus próprios demônios. A obra não se preocupa em explicar cada detalhe de sua mitologia, preferindo deixar que a lógica interna do seu universo se revele através de uma atmosfera de crescente desespero e inevitabilidade.

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