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Filme: “Fuga” (2018), Agnieszka Smoczyńska

Uma mulher emerge dos trilhos de uma estação de trem em Varsóvia, coberta de sujeira e desorientação. Ela não sabe seu nome, de onde veio ou para onde vai. Dois anos depois, identificada por um programa de TV como Kinga, ela é devolvida a uma família que não reconhece: um marido distante, um filho pequeno…


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Uma mulher emerge dos trilhos de uma estação de trem em Varsóvia, coberta de sujeira e desorientação. Ela não sabe seu nome, de onde veio ou para onde vai. Dois anos depois, identificada por um programa de TV como Kinga, ela é devolvida a uma família que não reconhece: um marido distante, um filho pequeno que a encara com uma mistura de medo e curiosidade, e uma casa que guarda os segredos de uma vida que lhe é completamente estranha. Esta é a premissa de Fuga, o longa de Agnieszka Smoczyńska que se afasta do fantástico de suas obras anteriores para mergulhar em um drama psicológico com a precisão de um bisturi. A condição da protagonista, uma fuga dissociativa, serve menos como um mistério a ser resolvido e mais como um catalisador para uma análise incisiva sobre identidade, memória e os papéis sociais que nos são atribuídos.

A diretora polonesa constrói uma atmosfera de estranhamento calculado. A câmera observa Alicja, como a mulher agora prefere ser chamada, com uma distância clínica enquanto ela navega pela sua antiga existência. Não há um esforço sentimental para que ela recupere quem era. Pelo contrário, Alicja trata seu passado com uma indiferença que incomoda, estudando fotografias e vídeos antigos como se pertencessem a uma desconhecida. Gabriela Muskała, que também assina o roteiro, entrega uma performance magnética em sua contenção, transmitindo a desconexão de sua personagem não através de grandes gestos, mas por um olhar vazio e uma fisicalidade que rejeita o toque e a intimidade. O filme se torna uma investigação sobre o que acontece quando a pessoa que você é agora se recusa a aceitar a pessoa que você um dia foi.

A obra de Smoczyńska opera em um terreno que questiona a própria continuidade do eu. Se a identidade é uma construção narrativa, sustentada pelas memórias que acumulamos, o que resta quando as páginas dessa história são arrancadas? Alicja representa essa ruptura. A mulher que sua família conhecia, talvez infeliz e sobrecarregada, desapareceu, dando lugar a uma figura mais livre, embora totalmente alienada. O filme não se apressa em reconciliar essas duas versões, sugerindo que a fuga do título talvez não seja apenas da memória, mas da própria definição imposta de quem se deve ser. É um estudo de personagem que opta pela observação fria em vez do melodrama, examinando as rachaduras na fundação da personalidade e o que pode crescer a partir delas.


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