Em ‘HaHaHa’, o aclamado diretor sul-coreano Hong Sang-soo tece uma narrativa astuta e observacional em torno de dois amigos, Mun-gyeong e Joong-sik. Sentados para um drinque, eles se revezam na tarefa familiar de compartilhar suas mais recentes aventuras e desventuras. O curioso é que ambos passaram por uma temporada na pacata cidade litorânea de Tongyeong, sem que um soubesse da presença do outro no mesmo período.
A estrutura do filme reside na forma como essas duas recordações são justapostas. As anedotas de Mun-gyeong sobre sua paixão por uma mulher local e as de Joong-sik sobre seu encontro com um poeta alcoólatra se desenrolam em paralelo, alternando-se em tela, revelando gradualmente os pontos de contato e as coincidências que eles próprios desconhecem. Visitam os mesmos locais, cruzam-se com as mesmas pessoas – uma dona de pousada excêntrica, uma mulher por quem ambos sentem alguma atração. O espectador, munido dessa perspectiva privilegiada, observa as micro-interações, os enganos da memória e as pequenas fabricações que adornam o relato pessoal.
Essa sobreposição de narrativas subjetivas transforma ‘HaHaHa’ numa meditação perspicaz sobre a percepção individual e a natureza fluida da realidade. O cinema de Hong Sang-soo é pontuado por seu estilo característico: planos longos, zooms sutis e um foco implacável nas trivialidades do dia a dia – refeições, bebidas, conversas descontraídas – que, ao serem repetidas e reinterpretadas, revelam a complexidade das relações humanas e as nuances da existência. Não há grandes epifanias, mas uma série de momentos de reconhecimento e apropriação do mundo por cada personagem, apresentados com uma naturalidade desarmante.
A leveza do título ‘HaHaHa’ sugere um humor agridoce, um riso irônico diante da dança de encontros e desencontros da vida. A obra captura a essência de como narramos nossas próprias histórias, como construímos uma versão do passado que nos serve, e como, muitas vezes, permanecemos alheios às interseções mais curiosas de nossa jornada. É um exame delicado de como a verdade se molda na boca de quem a conta e de como a vida segue seu curso, cheia de ecos e paralelos não percebidos, em um universo onde a subjetividade reina soberana.




Deixe uma resposta