Sessenta anos após a ousada experiência sinestésica de Walt Disney, seu sobrinho, Roy E. Disney, assume a batuta para orquestrar a sequência conceitual que o estúdio sempre almejou. Fantasia 2000 não é uma continuação no sentido narrativo, mas a realização de uma promessa: a de que a fusão entre animação e música clássica seria um formato vivo, em constante evolução. O filme, dirigido por um coletivo de talentos que inclui Eric Goldberg e os irmãos Brizzi, retoma a estrutura de antologia do original de 1940, apresentando oito segmentos musicais que buscam traduzir partituras icônicas em espetáculos visuais. A proposta é clara desde as primeiras notas da Quinta Sinfonia de Beethoven, que se desdobram em formas abstratas e coloridas, uma abertura que estabelece a pureza da intenção do projeto.
A obra funciona como um mostruário da capacidade técnica e da diversidade estilística da Disney na virada do milênio. Cada curta-metragem é um universo autônomo, com uma identidade visual distinta que serve à música, e não o contrário. Pinheiros de Roma, de Respighi, ganha uma dimensão monumental com baleias jubarte que voam por céus árticos, numa demonstração da recém-adotada tecnologia IMAX para a qual o filme foi concebido. Em um contraste deliberado, Rhapsody in Blue, de Gershwin, mergulha no traço caricatural e angular de Al Hirschfeld para contar múltiplas histórias interligadas na Nova Iorque da era do jazz, um balé urbano que capta a melancolia e a energia da composição. A seleção musical é heterogênea, passando pelo humor do Carnaval dos Animais de Saint-Saëns, com seu flamingo adepto do ioiô, até a releitura do conto O Soldadinho de Chumbo, musicado pelo Concerto para Piano nº 2 de Shostakovich, que explora uma animação computadorizada ainda em seus estágios iniciais de maturidade expressiva.
O que conecta peças tão díspares é uma busca, talvez inconsciente, pelo conceito de Gesamtkunstwerk, a “obra de arte total” que Richard Wagner idealizou. Fantasia 2000 aspira a essa síntese, onde a imagem e o som se tornam indissociáveis, criando uma terceira linguagem puramente sensorial. A inclusão estratégica de O Aprendiz de Feiticeiro, o único segmento resgatado do filme original, funciona como uma ponte histórica e qualitativa, ancorando a nova produção em seu legado e, ao mesmo tempo, destacando as mudanças estéticas e tecnológicas das décadas seguintes. O encerramento com a Suíte Pássaro de Fogo, de Stravinsky, apresenta uma narrativa sobre a morte e o renascimento da natureza, culminando em uma das sequências de animação mais poderosas e visualmente ambiciosas do estúdio, uma colisão entre a delicadeza de um espírito da floresta e a fúria de uma erupção vulcânica.
No final, Fantasia 2000 se revela menos um manifesto artístico e mais um instantâneo fascinante de um estúdio em transição. Ele captura a Disney no exato momento em que a animação tradicional, feita à mão, começava a ceder espaço para as ferramentas digitais, resultando em uma obra que é, simultaneamente, um tributo ao passado e um prólogo incerto para o futuro da forma de arte. É um documento sobre a coragem de revisitar uma ideia grandiosa, mesmo que o resultado final seja uma coleção de momentos brilhantes em vez de um todo perfeitamente coeso. Sua relevância reside nessa imperfeição, no diálogo entre o analógico e o digital, e na persistente crença de que uma composição de Stravinsky pode, de fato, ganhar a forma de um espírito elemental em chamas.




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