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Filme: “Quem Matou Quem?” (1943), Tex Avery

Numa noite de tempestade perpétua, as portas de uma imponente e gótica mansão se abrem para um cenário familiar: o corpo do milionário anfitrião jaz sem vida no chão da biblioteca. A premissa de ‘Quem Matou Quem?’ é um molde clássico do mistério criminal, um que o público do cinema dos anos 40 reconheceria instantaneamente.…


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Numa noite de tempestade perpétua, as portas de uma imponente e gótica mansão se abrem para um cenário familiar: o corpo do milionário anfitrião jaz sem vida no chão da biblioteca. A premissa de ‘Quem Matou Quem?’ é um molde clássico do mistério criminal, um que o público do cinema dos anos 40 reconheceria instantaneamente. Um detetive com chapéu e sobretudo é chamado para interrogar os suspeitos de sempre e encontrar a verdade por trás do crime. A estrutura é um alicerce sólido, construído com os clichês do gênero noir e das histórias de mansão assombrada, mas é um alicerce que Tex Avery ergue com o único propósito de demoli-lo espetacularmente, tijolo por tijolo.

A investigação do detetive se desenrola menos como um processo dedutivo e mais como uma cascata anárquica de gags visuais que desafiam a gravidade, a lógica e a integridade do próprio celuloide. O curta-metragem de animação da MGM rapidamente abandona qualquer pretensão de resolver um assassinato. O foco se desloca para a implacável sucessão de piadas surreais: personagens que correm para fora do quadro da tela, sombras com vida própria e uma busca por pistas que leva o investigador a confrontar a natureza elástica e maleável do universo animado. Avery utiliza a gramática do suspense apenas para subvertê-la, transformando cada porta rangendo e cada corredor escuro numa oportunidade para uma piada visual explosiva, executada com um ritmo e uma precisão que redefiniram a comédia no formato.

Aqui, a busca por um culpado se torna uma questão secundária, quase irrelevante. O que a obra de fato explora é uma espécie de niilismo cômico, uma ideia onde as regras do mundo – e, por extensão, as do gênero cinematográfico – são tão arbitrárias que a única resposta coerente é a gargalhada. A narrativa não se interessa pela identidade do assassino, mas sim pela desintegração da própria estrutura de mistério quando submetida a uma força de entropia puramente cartunesca. É um exercício de desconstrução onde a forma se torna o conteúdo. A tensão não vem da pergunta “quem matou?”, mas da expectativa de qual será a próxima convenção a ser pulverizada pela imaginação frenética de seu diretor.

Dessa forma, ‘Quem Matou Quem?’ funciona como um documento fundamental sobre o potencial da animação como meio. Tex Avery não está apenas parodiando um estilo de filme; ele está dissecando a própria linguagem do cinema, expondo seus artifícios e celebrando a liberdade que a animação oferece para romper com eles. Cada piada é uma afirmação da supremacia da imaginação sobre a realidade narrativa convencional. O curta-metragem permanece como uma demonstração influente de como o ritmo, o som e o absurdo podem ser orquestrados para criar uma comédia que opera em um nível de pura energia cinética, estabelecendo um novo léxico para a animação que seria assimilado por gerações de criadores.


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