Em meio à névoa alpina que envolve o Berghof, o refúgio isolado de Adolf Hitler nos Alpes Bávaros, um dia se desenrola com uma normalidade desconcertante. O filme Moloch, de Aleksandr Sokurov, nos coloca não em um campo de batalha ou em um comício inflamado, mas na intimidade claustrofóbica e banal do círculo de poder nazista. Acompanhamos 24 horas na vida de ‘Adi’ e sua companheira, Eva Braun. Longe da figura demoníaca dos arquivos históricos, Sokurov apresenta um homem hipocondríaco, vegetariano, atormentado por dores de estômago e propenso a monólogos verborrágicos sobre arte, destino e a inferioridade de seus inimigos. Eva, por sua vez, dança, toma banhos de sol nua e tenta capturar a atenção de um homem cuja mente parece permanentemente ausente, flutuando entre a grandiosidade e a mesquinhez.
A dinâmica é a de um casal disfuncional em um retiro de fim de semana, se não fosse pelo fato de que seus convidados são Joseph Goebbels e Martin Bormann, e as decisões tomadas entre uma caminhada e uma refeição vegetariana definem o destino de milhões. Sokurov esvazia a história de sua pompa e circunstância, focando nos detalhes prosaicos: as queixas sobre a comida, as pequenas discussões, o tédio opressivo que paira sobre todos. A câmera se move de forma lenta, quase sonâmbula, através de interiores sombrios e paisagens enevoadas, com uma paleta de cores desbotada que sugere decomposição. Não há eventos dramáticos no sentido convencional; a tensão reside precisamente na ausência deles, na atmosfera de estagnação e na surreal domesticidade que mascara uma ideologia de aniquilação.
O que emerge do filme de Sokurov é uma representação quase insuportável da banalidade do mal, um conceito explorado por Hannah Arendt, onde atos terríveis são executados não por fanáticos com olhares de fogo, mas por burocratas e figuras medíocres imersas em suas próprias trivialidades. Ao despojar Hitler de sua aura mítica, o diretor revela algo mais perturbador: um vácuo. Um homem pequeno, inseguro e patético, cercado por séquito de bajuladores, cuja existência absurda em seu ninho de águia ecoa o vazio no centro de sua própria ideologia. Moloch, a primeira parte da Tetralogia do Poder de Sokurov, não busca explicar o nazismo, mas sim observar o cotidiano grotesco que o alimentava, mostrando que o poder absoluto, quando visto de perto, pode ter a aparência de uma farsa doméstica mal encenada.




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