Uma sombra peculiar paira sobre a Paris da Ocupação em ‘O Assassino Mora no 21’, onde um metódico assassino em série aterroriza a cidade, deixando como única assinatura um cartão de visitas com o nome “Monsieur Durand”. A polícia, desnorteada, entrega o caso ao seu melhor homem, o comissário Wens, interpretado com uma calculada sobriedade por Pierre Fresnay. Uma pista improvável o leva a crer que o criminoso se esconde entre os excêntricos moradores de uma modesta pensão familiar no número 21 da Rue des Lilas. Para desmascarar o culpado, Wens assume a identidade de um pastor protestante e se infiltra na casa, um microcosmo fervilhante de personalidades suspeitas. A sua investigação, no entanto, é prontamente sabotada pela chegada de sua namorada, a aspirante a cantora Mila Malou, uma força da natureza vivida por Suzy Delair, que decide conduzir sua própria e caótica apuração paralela.
O que se desenrola no filme de estreia de Henri-Georges Clouzot não é um simples jogo de gato e rato, mas uma comédia de costumes disfarçada de thriller. Longe do peso existencialista de suas obras posteriores, Clouzot aqui demonstra um domínio precoce da tensão e do ritmo, mas aplicando-os a uma mecânica de relojoaria cômica. A pensão funciona como um palco onde cada inquilino é uma caricatura social: um mágico fracassado, um inventor de bonecas, um médico aposentado. Cada um possui um motivo e a oportunidade, transformando a audiência em cúmplice da paranoia de Wens. O suspense não emerge do perigo iminente, mas da deliciosa absurdidade de um detetive tentando manter a seriedade enquanto sua namorada transforma a cena do crime num palco para seus números musicais. Os diálogos, afiados e rápidos, estalam como chicotes, revelando mais sobre o cinismo e as pequenas hipocrisias da sociedade do que a própria investigação.
A dinâmica entre Wens e Mila Malou é o motor da narrativa, um embate entre a lógica dedutiva e a intuição performática. Ele busca a verdade factual, ela a verdade dramática. Nesse sentido, o filme flerta com a ideia de que a identidade é uma performance contínua; todos na pensão, incluindo o próprio detetive disfarçado e a atriz que nunca sai do personagem, estão representando um papel. Clouzot orquestra essa farsa com uma elegância que mascara a complexidade de sua estrutura. ‘O Assassino Mora no 21’ é um estudo de personagens dentro de um quebra-cabeça criminal, uma obra que utiliza o humor negro não para aliviar a tensão, mas para questionar a própria natureza da normalidade num mundo onde qualquer um pode ser o monstro da porta ao lado.




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