Em uma Nova York onde apagões, greves e tiros de sniper são apenas parte da paisagem sonora cotidiana, a indiferença pode ser a única forma de sobrevivência. É neste cenário que encontramos Alfred Chamberlain, um fotógrafo interpretado por um Elliott Gould no auge de seu anticarisma, que navega pela desordem urbana com uma passividade quase patológica. Ele não se defende quando é assaltado; ele apenas observa, um objeto imóvel contra uma força caótica. Sua vida muda quando Patsy Newquist, uma decoradora cheia de otimismo e energia, decide que Alfred é o seu projeto pessoal. Ela se apaixona não por quem ele é, mas por quem ela acredita que ele pode se tornar: um homem engajado, reativo e, em suma, “normal”. O filme de Alan Arkin, baseado na peça de Jules Feiffer, documenta essa tentativa de impor ordem e propósito a um indivíduo que já abdicou de ambos.
A comédia sombria de Pequenos Assassinatos floresce quando Alfred é absorvido pela família de Patsy. Os Newquist vivem em um apartamento que funciona como um bunker emocional, entrincheirados contra a loucura da cidade. O pai, um juiz e um patriarca frustrado, lamenta a decadência dos valores; a mãe flutua em uma névoa de negação otimista; e o irmão exibe uma homossexualidade reprimida através de uma masculinidade performática. Eles são o retrato da família americana em estado de sítio, tentando manter as aparências enquanto o mundo lá fora se desintegra em atos aleatórios de violência, os tais “pequenos assassinatos” que dão nome à obra. A direção de Arkin captura a claustrofobia teatral da peça, transformando o apartamento em um palco onde a histeria e o humor absurdo se encontram em um diálogo desconfortável e brilhante.
A apatia inicial de Alfred pode ser lida não como fraqueza, mas como a única resposta sã a um universo que perdeu o enredo, um eco da aceitação do absurdo que o pensamento existencialista explorou. O filme não se preocupa em diagnosticar a sociedade, mas em apresentar seus sintomas através de uma lógica implacável. Quando a tragédia, inevitável e anônima, finalmente atinge o núcleo da família, a transformação que se segue é a conclusão satírica perfeita. A passividade de Alfred é posta à prova, e a busca desesperada dos Newquist por um sentido os leva a abraçar a própria anarquia que tanto temiam. A cena final é uma das mais perturbadoras e engraçadas da comédia americana, uma rendição completa à irracionalidade que se tornou a nova norma.
Pequenos Assassinatos permanece uma cápsula do tempo da ansiedade do início dos anos 70, mas sua análise sobre a violência casual e a desintegração das estruturas sociais continua afiada. É uma obra que usa o riso como um bisturi, dissecando a forma como as pessoas tentam construir significado em um ambiente que parece determinado a provar que não existe nenhum. Sem oferecer soluções ou julgamentos morais, o filme de Alan Arkin apresenta um retrato cáustico e inteligente de uma sociedade aprendendo, da maneira mais difícil, a parar de se preocupar e a amar o caos.




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