Em ‘Baixeza’ (Criss Cross), o regresso de Steve Thompson a Los Angeles é menos um recomeço e mais a reabertura de uma ferida. Burt Lancaster dá corpo a este homem comum, funcionário de uma empresa de carros blindados, que volta para a cidade e para a órbita de Anna, a sua ex-mulher, interpretada por Yvonne De Carlo com uma ambiguidade calculada. O problema é que Anna está agora casada com Slim Dundee, um criminoso de pequena monta com grandes ambições, a quem Dan Duryea empresta um carisma peçonhento. O reencontro entre Steve e Anna reacende uma atração mútua e autodestrutiva, arrastando o protagonista para um esquema que ele mesmo concebe em um momento de pânico: o assalto a seu próprio carro blindado.
A trama, a partir daí, desenrola-se como uma espiral de desconfiança e traições anunciadas. O plano do roubo, nascido da necessidade de Steve se proteger da fúria de Slim, torna-se o palco central onde as lealdades são testadas e invariavelmente quebradas. Robert Siodmak, o diretor, não se interessa pelo suspense do assalto em si, mas pela mecânica da queda de seu personagem principal. Utilizando uma estrutura de flashback que ocupa grande parte da projeção, o filme estabelece desde o início que o destino de Steve está selado, transformando a narrativa numa autópsia da má decisão, um estudo sobre como um homem pode, conscientemente, caminhar em direção ao abismo por uma fixação que a razão não consegue governar.
A direção de Siodmak, com suas fortes raízes no expressionismo alemão, constrói uma Los Angeles pouco glamorosa, um cenário de ruas ensolaradas e bares sombrios onde as sombras parecem ter mais substância que a luz. A fotografia explora os rostos em close-ups que revelam a angústia, a cobiça e a resignação, especialmente no de Lancaster, cuja fisicalidade imponente contrasta de forma notável com a impotência emocional de seu personagem. Ele não é um sujeito enganado por uma femme fatale; ele é um participante ativo de sua própria ruína, plenamente ciente da natureza de Anna, mas incapaz de se desvencilhar dela.
O filme se aprofunda na ideia de um determinismo psicológico. A narrativa opera quase como uma demonstração da Vontade schopenhaueriana, aquela força cega e irracional que impulsiona os indivíduos para além da lógica e do instinto de autopreservação. A paixão de Steve por Anna não é amor, é uma compulsão, um motor que o move em direção ao desastre com a inevitabilidade de um fenómeno natural. É essa abordagem, que coloca o conflito dentro da psique fraturada dos personagens e não apenas nas circunstâncias externas, que confere a ‘Baixeza’ um lugar distinto dentro do cinema noir. A obra de Siodmak examina o livre-arbítrio não como uma certeza, mas como uma possibilidade frágil, facilmente subjugada por desejos que a própria pessoa não compreende por completo, resultando em um dos finais mais implacáveis e coerentes do seu tempo.




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