Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Cousin Jules” (1972), Dominique Benicheti

Num canto isolado da Borgonha, o tempo parece mover-se a um ritmo próprio, ditado pelo fogo da forja e pelo ranger do moedor de café. É neste cenário que vivem Jules Guiteaux e sua esposa, Félicie. Ele, um ferreiro cuja vida é marcada pelo som do martelo contra a bigorna; ela, a guardiã silenciosa dos…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Num canto isolado da Borgonha, o tempo parece mover-se a um ritmo próprio, ditado pelo fogo da forja e pelo ranger do moedor de café. É neste cenário que vivem Jules Guiteaux e sua esposa, Félicie. Ele, um ferreiro cuja vida é marcada pelo som do martelo contra a bigorna; ela, a guardiã silenciosa dos rituais domésticos. O documentário de Dominique Benicheti, filmado ao longo de cinco anos, dedica-se a registrar a rotina imutável deste casal, parentes do próprio diretor, oferecendo um acesso raro a um modo de vida prestes a ser engolido pela modernidade. A obra acompanha suas tarefas diárias, desde o preparo do café da manhã até o árduo trabalho na oficina, com uma paciência e um foco que transformam o mundano em algo de profundo interesse.

A abordagem de Benicheti é de uma precisão quase arquitetônica. Cada enquadramento, capturado em CinemaScope, parece uma pintura flamenga, onde a luz e a composição revelam a dignidade dos objetos e dos gestos. Contudo, é no som que o filme encontra sua verdadeira pulsação. Desenvolvido especialmente para a produção, o sistema de som direto não apenas captura o ambiente, mas o transforma em protagonista. O tilintar dos talheres, o borbulhar da sopa, o trabalho incessante do martelo de Jules: são esses os diálogos e a trilha sonora de uma existência definida pela repetição e pela função. A ausência de uma narração ou de entrevistas diretas remove qualquer filtro interpretativo, depositando no espectador a tarefa de observar e absorver.

Ao assistir a Cousin Jules, o conceito de tempo do relógio se dissolve, dando lugar à noção de duração, ou a *durée* de Bergson, onde a experiência é medida pela qualidade e pela intensidade dos momentos vividos, não por sua sucessão mecânica. O filme opera dentro dessa lógica. Não há um enredo com clímax ou resolução; a estrutura é cíclica, como as estações do ano ou o próprio ato de forjar o metal. É um estudo sobre a permanência através do trabalho e da dedicação. Benicheti não procura extrair drama da vida de Jules e Félicie, mas sim encontrar a beleza e o peso existencial em sua constância, documentando com rigor e afeto o fim de uma era, cujo valor reside na sua própria e silenciosa funcionalidade.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading