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Filme: “Nosso Dia Chegará” (2010), Romain Gavras

Em um canto esquecido da França, a adolescência de Rémy é uma sequência de humilhações silenciosas, pontuadas pela cor flamejante de seu cabelo. Ele é um alvo fácil, um pária por um detalhe genético. É nesse vácuo de pertencimento que surge Patrick, um psiquiatra interpretado por um Vincent Cassel magnético e predatório, que compartilha com…


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Em um canto esquecido da França, a adolescência de Rémy é uma sequência de humilhações silenciosas, pontuadas pela cor flamejante de seu cabelo. Ele é um alvo fácil, um pária por um detalhe genético. É nesse vácuo de pertencimento que surge Patrick, um psiquiatra interpretado por um Vincent Cassel magnético e predatório, que compartilha com o jovem a mesma característica capilar. Patrick não oferece terapia, mas sim um propósito; uma fuga radical para uma utopia inventada: a Irlanda, concebida como uma mítica terra prometida para os ruivos. Assim se inicia o périplo de “Nosso Dia Chegará”, um road movie que Romain Gavras conduz não como uma jornada de autodescoberta, mas como uma imersão cáustica na fabricação de uma identidade a partir do nada.

A viagem da dupla é uma escalada de transgressões anárquicas. O que começa com pequenos atos de rebeldia rapidamente se transforma em uma espiral de violência crua e niilismo performático. A câmera de Gavras, herdeira de sua estética consagrada em videoclipes, acompanha os dois com uma energia febril e um realismo desconfortável. A paleta de cores dessaturada da paisagem industrial francesa contrasta com o vermelho dos cabelos dos protagonistas, o único ponto de saturação em um mundo apático. A busca por um paraíso gaélico se revela um pretexto para uma libertação puramente destrutiva, uma cruzada sem causa real, onde cada ato violento é um passo a mais para longe de qualquer código social.

O que a narrativa de Gavras disseca com precisão cirúrgica é a fragilidade dos discursos identitários quando levados ao extremo. A condição de “ruivo” funciona como um significante vazio, preenchido por Patrick com uma ideologia de superioridade e ressentimento. O filme explora como um sentimento de exclusão pode ser instrumentalizado para justificar o caos, articulando uma espécie de moralidade reativa, forjada a partir da impotência e do desprezo percebido. Patrick não é um mentor, mas um arquiteto do colapso de Rémy, empurrando-o para um ponto de não retorno onde a liberdade se confunde com a autodestruição.

“Nosso Dia Chegará” opera como uma provocação estética e sociológica. Sem oferecer conclusões fáceis ou redenção para suas figuras centrais, o longa de Romain Gavras se firma como um estudo visceral sobre alienação e a busca desesperada por pertencimento em um mundo que parece ter esgotado seus grandes relatos. É um cinema de impacto físico e visual, que se recusa a confortar o espectador, preferindo deixar a imagem de um carro em chamas e a ilusão de uma terra prometida ecoarem muito depois dos créditos finais.


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