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Filme: “The Golden Thread” (1965), Ritwik Ghatak

No coração pulsante e caótico da Calcutá dos anos 70, Nilkantha Bagchi, um intelectual alcoólatra e desiludido, personificado pelo próprio diretor Ritwik Ghatak, vê o seu mundo doméstico ruir. A sua esposa, farta da sua inércia e dos seus discursos vazios, o expulsa de casa. Este ato de expulsão lança Nilkantha numa jornada sem destino…


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No coração pulsante e caótico da Calcutá dos anos 70, Nilkantha Bagchi, um intelectual alcoólatra e desiludido, personificado pelo próprio diretor Ritwik Ghatak, vê o seu mundo doméstico ruir. A sua esposa, farta da sua inércia e dos seus discursos vazios, o expulsa de casa. Este ato de expulsão lança Nilkantha numa jornada sem destino através de um cenário de agitação política alimentada pelo movimento Naxalita e pelas cicatrizes ainda abertas da Partição de Bengala. O filme acompanha este homem, um farrapo de ideais perdidos, enquanto ele vagueia, recolhendo fragmentos de uma sociedade à beira do colapso.

O seu périplo pelas paisagens rurais e urbanas de Bengala é feito na companhia de duas figuras que representam o futuro que ele já não compreende: o seu jovem sobrinho e uma refugiada da recém-formada Bangladesh. Juntos, eles encontram uma galeria de personagens que espelham a desintegração social em curso, desde artistas famintos e camponeses sem terra a jovens revolucionários armados, cada um agarrado a uma diferente esperança ou a um diferente desespero. As conversas, embebidas em álcool e angústia, não levam a conclusões, mas expõem as contradições de uma geração que viu as promessas da independência se transformarem em cinzas.

Jukti Takko Aar Gappo, o título original, traduz-se como ‘Razão, Debate e uma História’, e é nesta tríade que reside o esqueleto conceptual da obra. Ghatak desmonta a presunção de que a razão (‘jukti’) ou o debate intelectual (‘takko’) possuem a força para curar as feridas de uma nação. Ambos falham, mostrando-se impotentes perante a dor real e a violência sistémica. O que resta, então, é a história (‘gappo’) – o relato fragmentado, pessoal, por vezes incoerente, como único mecanismo para processar a realidade. A própria estrutura do filme, com as suas quebras abruptas e a sua estética crua, quase documental, reflete essa falência das narrativas organizadas.

The Golden Thread funciona menos como um drama e mais como um testamento febril e profundamente autobiográfico. É o último ato de um cineasta que usa a câmara não para construir ficções coesas, mas para diagnosticar a sua própria desilusão e a da sua geração. A obra não oferece um caminho, mas mapeia com uma honestidade brutal o terreno de um colapso ideológico e existencial, solidificando o seu lugar como uma peça fundamental e visceralmente pessoal do cinema indiano moderno, um documento sobre o que acontece quando as grandes ideias morrem e só resta a errância.


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