Lav Diaz, um nome que imediatamente associa-se a uma imersão cinematográfica prolongada, entrega em ‘Century of Birthing’ (Um Século de Nascimento) uma obra que redefine a percepção de tempo e narrativa na tela. Com suas quase nove horas de duração, o filme propõe uma experiência que vai além do convencional, mergulhando o espectador em um fluxo de consciência que transita entre a vida de uma cineasta e a de um líder religioso. Esta é uma proposta desafiadora, mas recompensadora, no universo do cinema filipino.
A trama central acompanha Horacia, uma cineasta em crise criativa que se isola em uma ilha para terminar um roteiro. Sua luta com a escrita é uma metalinguagem para a própria dificuldade de construir narrativas em meio ao caos histórico e pessoal. Paralelamente, a obra introduz Homer, um fundador de culto religioso que lida com as complexidades da fé, da manipulação e do poder em sua comunidade isolada. Suas vidas não se entrelaçam de forma direta ou convencional, mas suas jornadas existenciais ecoam uma na outra, explorando a busca por sentido e o peso das escolhas em cenários de privação e desilusão. Diaz emprega sua assinatura visual em preto e branco, com planos longos e imobilidade calculada, que conferem uma atmosfera quase onírica, permitindo que cada cena respire e se aprofunde.
O filme desdobra-se em uma meditação sobre a condição humana nas Filipinas, abordando temas de opressão histórica, colonialismo e a persistente busca por identidade. As dores e as esperanças do povo filipino são sentidas através da introspecção dos personagens, que enfrentam dilemas morais e existenciais sob o sol inclemente. Lav Diaz não busca apresentar uma história linear com arcos dramáticos definidos; em vez disso, ele cria um vasto panorama onde o tempo se torna um elemento palpável, permitindo que a realidade se manifeste em sua crueza e complexidade. A sensação de ‘becoming’ – de um devir contínuo, de uma perpétua gestação de ideias, conflitos e verdades – permeia cada quadro, desde a agonia criativa de Horacia até a formação e desintegração da comunidade de Homer.
A profundidade de ‘Century of Birthing’ reside na sua capacidade de fazer com que a duração não seja apenas uma característica, mas um componente vital da sua exploração temática. A paciência exigida do público é recompensada por uma percepção aguçada sobre a natureza do tempo e da existência. As longas tomadas não são apenas um estilo; elas são o veículo para uma observação desapaixonada, quase documental, sobre a resiliência e a fragilidade humanas. Não há atalhos narrativos ou truques de roteiro; o filme se constrói lentamente, camada por camada, revelando a crueza da experiência e a beleza melancólica da luta diária.
Para aqueles dispostos a se entregar à sua cadência única, o filme de Lav Diaz propicia um espaço para a reflexão profunda sobre o ato de criar, a natureza da fé e a inescapável influência da história. É uma peça cinematográfica que privilegia a contemplação sobre a resolução, instigando o público a um mergulho em questões persistentes. Sua abordagem não convencional ao drama histórico e psicológico o posiciona como uma obra fundamental para entender as complexidades do cinema independente contemporâneo e a visão singular de um dos mais importantes diretores das Filipinas.




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