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Filme: "Gett: O Julgamento de Viviane Amsalem" (2014), Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz

Filme: “Gett: O Julgamento de Viviane Amsalem” (2014), Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz

Gett: O Julgamento de Viviane Amsalem explora a angustiante saga de uma mulher buscando divórcio e liberdade em um tribunal rabínico de Israel, confrontando a lei religiosa e a autonomia pessoal.


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“Gett: O Julgamento de Viviane Amsalem”, dirigido por Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, mergulha o espectador em uma saga judicial extraordinariamente particular e universal ao mesmo tempo. A premissa é direta: Viviane Amsalem busca um divórcio, um “gett”, de seu marido, Elisha, através do tribunal rabínico de Israel. O que se desenrola, contudo, é uma odisseia de anos a fio, aprisionada nas paredes de um tribunal onde as leis religiosas ditam cada passo, e a autonomia de uma mulher parece um ideal distante.

A maior parte da narrativa se desenrola dentro dos limites claustrofóbicos da sala do tribunal. É neste cenário contido que testemunhamos a repetitiva e angustiante performance legal e pessoal. Viviane, interpretada com uma quietude poderosa pela própria Ronit Elkabetz, senta-se impassível, seu semblante refletindo uma mistura de exaustão, dignidade e uma determinação quase esgotada. De um lado, seus advogados tentam persuadir os três rabinos a conceder o divórcio; do outro, Elisha, ora esquivo, ora ressentido, recusando-se repetidamente a dar seu consentimento, requisito indispensável para a dissolução do casamento perante a lei religiosa judaica.

O filme notavelmente abstém-se de artifícios cinematográficos grandiosos. A câmera permanece em grande parte estática, observando os rostos, os gestos e as nuances sutis das discussões. Essa escolha minimalista não apenas acentua a sensação de aprisionamento e a passagem implacável do tempo, mas também força o público a confrontar a rigidez e a arbitrariedade do sistema. Cada audiência é um novo ato em um drama prolongado, onde a paciência dos envolvidos é testada até o limite, e a burocracia religiosa se revela uma força quase inabalável. Os argumentos se repetem, as esperanças são elevadas e frustradas, e a vida de Viviane permanece em um limbo kafkiano, à mercê da vontade de seu marido e da interpretação dos preceitos antigos.

Os diretores tecem um retrato íntimo e incômodo de um sistema legal que, para muitos, opera fora da lógica secular comum. Os rabinos são retratados não como figuras monolíticas, mas com suas próprias personalidades e dilemas, alguns mais compreensivos, outros mais apegados à letra fria da lei, mas todos, em última instância, limitados pelos dogmas que juraram defender. A forma como o filme explora a dinâmica de poder entre Viviane e Elisha, e entre o indivíduo e a instituição, é uma de suas maiores forças. A busca de Viviane por um “gett” se torna menos sobre a ruptura de um vínculo conjugal e mais sobre a árdua luta por sua própria capacidade de autodeterminação, a sua soberania sobre a própria existência.

Em sua essência, “Gett” transcende a especificidade cultural de seu cenário para tocar em questões universais sobre a liberdade pessoal e a busca por dignidade em face de obstáculos institucionais esmagadores. É uma análise crua sobre o que significa persistir quando o tempo parece conspirar contra você e quando a agência individual é constantemente subjugada por tradições e regras ancestrais. O filme é uma meditação poderosa sobre a resiliência humana e o custo da autonomia, revelando a dura realidade de quem precisa implorar pela própria liberdade em um tribunal, tornando-se uma experiência cinematográfica pungente e memorável que ecoa muito além de sua conclusão.


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