O Viajante, de Abbas Kiarostami, centra-se na incessante busca de Qassem, um menino de uma pequena cidade iraniana que nutre um desejo ardente: viajar para Teerã para assistir a uma partida de futebol decisiva. Longe de ser um conto ingênuo, o filme desdobra a saga de um protagonista movido por uma obsessão que o leva a manobras audaciosas, e eticamente questionáveis, para conseguir os fundos necessários. Qassem, com uma astúcia que surpreende, inventa esquemas, engana amigos e vizinhos, e chega a vender o equipamento fotográfico da escola, tudo para concretizar sua jornada rumo ao espetáculo na capital.
A narrativa acompanha Qassem em sua determinação implacável, revelando as camadas de uma criança que transita entre a inocência e uma pragmática amoralidade na busca de seu objetivo. Kiarostami nos convida a observar as artimanhas do garoto, que não recua diante de nenhum obstáculo para acumular as míseras quantias que o separam de seu bilhete para Teerã. A jornada em si, quando finalmente empreendida, transforma-se em um estudo sobre a antecipação e a perseguição de um ideal. O filme captura a febril expectativa de Qassem, o desgaste físico e mental da viagem, e a aura que o evento esportivo adquire em sua mente, quase um *phantasma*, uma aparição que ofusca qualquer outra realidade.
Este trabalho de Kiarostami não se perde em sentimentalismos, mas oferece uma visão aguçada sobre a infância e a força motriz do desejo. Sem juízos de valor explícitos, a obra permite que o espectador contemple as consequências de uma vontade inabalável, e como a vida, por vezes, oferece desfechos que desviam das expectativas mais grandiosas. O Viajante permanece como um documento sutil sobre as dinâmicas sociais, as aspirações juvenis e a tênue linha entre a perseverança e a ilusão do controle, marcando a filmografia do diretor iraniano com sua observação perspicaz e minimalista.




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