Em uma noite qualquer no Brooklyn, Alike, uma jovem de 17 anos, desce do ônibus e, num ritual silencioso, troca suas roupas largas e masculinas por um jeans e uma blusa mais discretos antes de entrar em casa. Este ato, pequeno e rotineiro, encapsula o núcleo de ‘Pariah’, o longa de estreia de Dee Rees. A narrativa acompanha a jornada de Alike (uma performance reveladora de Adepero Oduye) enquanto ela navega pela complexa topografia de sua identidade como uma adolescente negra e lésbica, vivendo uma vida dupla entre a liberdade dos clubes queer e a sufocante atmosfera de seu lar. A poesia é seu refúgio e sua principal ferramenta para processar um mundo que parece exigir que ela escolha um lado.
O filme estabelece seu conflito central não em grandes eventos, mas na tensão acumulada dentro das paredes de casa. Sua mãe, Audrey (Kim Wayans), uma mulher devota e aterrorizada com a sexualidade da filha, tenta de forma insistente “corrigi-la”, empurrando-a para uma amizade com Bina (Aasha Davis), uma colega da igreja. Seu pai, Arthur (Charles Parnell), um policial que parece notar mais do que demonstra, opta por uma passividade cúmplice, preferindo o silêncio à confrontação. O roteiro de Rees, desenvolvido a partir de seu curta-metragem homônimo, é meticuloso ao construir esse drama familiar, onde o amor e o medo se tornam indistinguíveis e as boas intenções pavimentam um caminho de dor e incompreensão.
A direção de Dee Rees demonstra uma maturidade e uma segurança notáveis. Com a fotografia texturizada de Bradford Young, o filme cria dois mundos visuais distintos. As cenas nos clubes e com sua melhor amiga, Laura (Pernell Walker), são banhadas em cores quentes e saturadas, com uma câmera móvel que pulsa junto com a música e a energia dos corpos. Em contraste, o ambiente doméstico é filmado em tons frios e azulados, com enquadramentos mais estáticos que aprisionam os personagens em seus próprios espaços, muitas vezes separados por portas e paredes, reforçando a distância emocional que os define.
‘Pariah’ examina a identidade não como uma essência a ser descoberta, mas como um ato de construção contínua. Alike não está simplesmente “se encontrando”; ela está ativamente se criando, experimentando com roupas, posturas e linguagens na tentativa de alinhar seu eu interior com sua expressão exterior. Há aqui um eco da ideia existencialista de que a existência precede a essência, onde a identidade é um verbo e não um substantivo. Ela é forjada através das escolhas, dos erros, dos poemas escritos em segredo e dos momentos de coragem. O filme se aprofunda nessa performance do eu, mostrando como a busca por autenticidade pode ser um processo desajeitado e, por vezes, doloroso.
A complexidade dos personagens é um dos maiores trunfos da obra. Audrey não é uma figura puramente antagônica; suas ações, embora prejudiciais, são movidas por um sistema de crenças rígido e por um medo palpável de perder a filha para um mundo que ela não entende e condena. Arthur, por sua vez, representa a falha da inação, uma figura paterna cuja aparente compreensão não se traduz em proteção ou apoio efetivo, tornando seu silêncio tão prejudicial quanto as palavras da esposa. Essa dinâmica impede que o filme caia em simplificações, apresentando um retrato familiar dolorosamente crível.
As atuações são uniformemente excelentes. Adepero Oduye carrega o filme com uma presença quieta e observadora, comunicando a vulnerabilidade e a força crescente de Alike com uma economia de gestos impressionante. Seus olhos registram cada pequena rejeição e cada vislumbre de aceitação, tornando sua jornada interna completamente transparente para o espectador. Kim Wayans, mais conhecida por seu trabalho na comédia, entrega uma performance dramática poderosa e cheia de camadas, enquanto Charles Parnell captura a ambiguidade de um homem preso entre o dever familiar e sua consciência.
‘Pariah’ não oferece conclusões fáceis nem discursos grandiosos. Seu impacto reside na sua especificidade, na crônica íntima e profundamente humana de uma jovem lutando pelo direito de definir a si mesma em seus próprios termos. O filme se posiciona como uma peça fundamental do cinema independente americano do século XXI, não por gritar uma mensagem, mas por sussurrar uma verdade poética e particular. A cena final, onde Alike parte em direção a um futuro incerto, não representa uma chegada, mas o início de uma jornada, a primeira estrofe de um poema que ela, finalmente, começa a escrever em voz alta.




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