“Turbulent”, a obra de vídeoarte de Shirin Neshat de 1998, é um díptico sensorial que coloca lado a lado duas performances musicais distintas, instigando uma profunda meditação sobre gênero, voz e o peso da tradição. A experiência se desdobra em duas telas que se encaram, apresentando um confronto sutil entre a reverência à performance masculina e a visceralidade da expressão feminina.
No primeiro plano, o aclamado cantor iraniano Shahram Nazeri apresenta-se diante de uma plateia exclusivamente masculina, imerso na formalidade e na técnica da música persa clássica. Seus vocais são precisos e melodiosos, ecoando séculos de um legado cultural que valida sua presença e arte. A plateia, atenta e responsiva, é parte integrante dessa performance ritualística, um coro silencioso que valida a estrutura e a ordem. Cada aplauso e movimento da multidão reafirma a legitimidade de uma tradição estabelecida.
Em contraponto, a tela oposta revela a cantora Sussan Deyhim. Ela ocupa um palco semelhante, mas a sala está completamente vazia. Sua voz, inicialmente hesitante e quase sussurrante, gradualmente se transforma em uma torrente sonora que ultrapassa qualquer categorização formal. Não há palavras, apenas vocalizações que transitam entre o lamento primal, o canto livre e a dissonância expressiva. É uma explosão sonora que se desvincula das convenções melódicas, revelando uma paisagem auditiva que é ao mesmo tempo íntima e universal, desprovida da aprovação de uma audiência física, mas vibrando com uma intensidade inegável. Essa ausência de um público visível amplifica a solidão e a liberdade inerente à sua manifestação artística.
A genialidade de Neshat reside na justaposição dessas realidades paralelas. “Turbulent” não narra uma história linear; em vez disso, ele apresenta uma colisão de mundos, onde a autoridade da tradição masculina é confrontada pela liberdade radical da expressão feminina. A obra incita uma reflexão sobre as esferas permitidas e as vozes que são relegadas à margem, ou simplesmente ignoradas, dentro de determinados contextos sociais. O que significa ter uma voz quando não há quem a ouça, ou quando o modo de sua manifestação rompe com as expectativas estabelecidas? A própria materialidade do som se torna um campo de contestação.
A ausência de público para a performance de Deyhim e a natureza desregrada de seu canto sublinham a ideia de que certas expressões artísticas, ou até mesmo formas de ser, podem ser inerentemente “turbulentas” para as estruturas sociais dominantes. Essa turbulência não é necessariamente destrutiva, mas sim uma força que perturba a quietude das normas. Neshat explora a ideia do som como uma ferramenta de afirmação e subversão, onde a “música” de Deyhim, embora anárquica para os ouvidos condicionados, surge como uma forma pura e irrefreável de presença. É uma voz que se faz ouvir pela sua própria existência, e não pela sua recepção ou validação externa.
O filme, em sua concisão e profundidade, questiona a própria noção de valor e legitimidade na arte e na sociedade. Ao apresentar essas duas faces da moeda – a tradição validada e a inovação marginalizada –, “Turbulent” convoca uma discussão sobre quem tem o direito de ser ouvido e em que termos. Não se trata de uma simples dualidade, mas de uma complexa teia de interações onde a ausência de um público pode, paradoxalmente, intensificar a potência de uma performance, tornando-a uma manifestação de autenticidade crua. Shirin Neshat entrega uma obra que permanece incisiva, relevante e memorável, provocando discussões contínuas sobre poder, voz e a arte como veículo de questionamento.




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