Em ‘Witch’s Cradle’, o filme inacabado de 1943 de Maya Deren, somos apresentados a uma jovem mulher, interpretada por Pajorita Matta, que adentra um espaço que é tanto uma galeria de arte quanto um campo de forças invisíveis. Nesse ambiente, uma figura enigmática, encarnada por Marcel Duchamp, age como um operador de realidades, manipulando um longo fio de barbante. O filme, filmado na galeria Art of This Century de Peggy Guggenheim, utiliza o jogo de cama de gato não como uma brincadeira infantil, mas como a manifestação física de conexões ocultas que governam o movimento e a percepção dentro daquele universo fechado.
O fio não é um mero objeto; ele se torna a própria arquitetura do invisível, uma linha que define trajetórias, aprisiona e liberta. As mãos de Duchamp tecem e desfazem padrões, e a câmera de Deren segue a jornada desse fio com uma precisão hipnótica. O fio se estica de um prego na parede, passa pelos dedos de Matta, contorna objetos e desenha no ar um pentagrama, sugerindo um ritual em andamento. A interação entre os personagens é mediada por essa entidade linear, que parece ditar cada gesto, cada olhar. O espaço se transforma em um diagrama vivo, onde as leis da física cedem lugar a uma geometria esotérica.
A lógica visual do filme aproxima-se de um conceito que seria mais tarde articulado na filosofia: o rizoma. Não há uma estrutura hierárquica clara, com um começo, meio e fim, mas sim uma rede de conexões que se multiplicam em todas as direções. O fio de Duchamp é um conector que cria relações acentradas entre pontos distintos do espaço, entre o animado e o inanimado, entre o sujeito e o objeto. Não há um ponto de origem ou um destino final, apenas um emaranhado de relações que se expande e se contrai, sugerindo que a realidade é formada por um sistema de interconexões fluidas e não por uma cadeia de causa e efeito linear.
A direção de Maya Deren concentra-se na fisicalidade do ato mágico. Close-ups em mãos, olhos e na textura do barbante criam uma experiência sensorial, quase tátil. A câmera parece flutuar, adotando pontos de vista impossíveis que reforçam a natureza onírica e ritualística da cena. O fato de ser um projeto interrompido confere a ‘Witch’s Cradle’ uma qualidade única de feitiço suspenso. O ritual nunca se completa, a energia nunca se dissipa por completo, deixando o espectador em um estado de perpétua antecipação. A ausência de um desfecho narrativo formal reforça a ideia de que o processo é mais significativo que o resultado.
‘Witch’s Cradle’ funciona como uma peça chave para compreender a busca de Deren por um cinema poético, ou o que ela chamava de “poema-câmera”. É um estudo sobre como o cinema pode visualizar sistemas de pensamento abstratos, transformando o espaço fílmico em um campo para a manifestação de forças metafísicas. A obra não apresenta uma narrativa para ser decifrada, mas um sistema visual para ser percebido. Por isso, mais do que uma história sobre bruxaria, o filme permanece como um fragmento poderoso, uma investigação sobre as geometrias invisíveis que delineiam o espaço e a possibilidade.




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