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Filme: “Em Terra” (1944), Maya Deren

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Uma mulher emerge das ondas, mas a maré, em um movimento invertido, recua em vez de avançar. Ela escala uma raiz de árvore na praia e, sem cortes visíveis que justifiquem a transição, encontra-se no interior de uma sala de jantar, rastejando sobre uma longa mesa de banquete. Os convidados, engajados em suas conversas e rituais sociais, parecem indiferentes à sua presença surreal. Este é o ponto de partida de ‘Em Terra’, a obra de 1944 onde a cineasta Maya Deren, que também protagoniza, desenha uma jornada através de uma paisagem que é tanto física quanto psicológica, um mapa da consciência em busca de sua própria forma.

A protagonista, movendo-se com uma determinação coreografada, atravessa uma sucessão de cenários desconexos que se unem pela lógica de um sonho. De um ambiente social formal, ela passa para um caminho rochoso, interage brevemente com um homem que parece absorto em seus próprios pensamentos, e encontra outras versões de si mesma, deitadas na areia ou jogando xadrez. O filme dispensa uma narrativa convencional. Em seu lugar, oferece uma psicogeografia, onde o deslocamento físico da personagem através de espaços incompatíveis representa uma busca interna por identidade. Cada novo ambiente é um fragmento do mundo exterior que ela deve atravessar para, talvez, entender algo sobre o seu próprio lugar.

A obra opera sob uma premissa que ecoa o pensamento de Heráclito sobre o fluxo constante: a identidade não é uma entidade fixa, mas um processo contínuo de vir a ser, moldado pela interação com o ambiente. Deren não constrói uma personagem com um arco dramático, mas sim visualiza um estado de ser. A sua performance é fundamental; seu corpo é o nexo que conecta os mundos, seja rastejando, correndo ou observando. A câmera não apenas registra, mas participa dessa exploração, utilizando justaposições e uma montagem associativa para criar uma gramática visual particular, que se tornaria uma base para o cinema experimental norte-americano. As ações da protagonista não geram consequências lógicas, mas sim abrem portais para novas percepções.

Em um momento crucial, ela se depara com um jogo de xadrez na praia. As peças são movidas pelas ondas. Ela observa, depois intervém, pegando um peão branco e fugindo com ele pela areia, subindo dunas. Este ato final não oferece uma resolução, mas sim uma afirmação. Ao tomar uma peça do jogo, ela parece reivindicar um elemento para si, uma pequena parte de agência em um universo de forças indiferentes, sejam elas as ondas do mar ou as convenções de um jantar. ‘Em Terra’ permanece um estudo poderoso sobre a subjetividade, um poema cinematográfico que articula a complexa relação entre o eu e o mundo sem a necessidade de uma única palavra.

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Uma mulher emerge das ondas, mas a maré, em um movimento invertido, recua em vez de avançar. Ela escala uma raiz de árvore na praia e, sem cortes visíveis que justifiquem a transição, encontra-se no interior de uma sala de jantar, rastejando sobre uma longa mesa de banquete. Os convidados, engajados em suas conversas e rituais sociais, parecem indiferentes à sua presença surreal. Este é o ponto de partida de ‘Em Terra’, a obra de 1944 onde a cineasta Maya Deren, que também protagoniza, desenha uma jornada através de uma paisagem que é tanto física quanto psicológica, um mapa da consciência em busca de sua própria forma.

A protagonista, movendo-se com uma determinação coreografada, atravessa uma sucessão de cenários desconexos que se unem pela lógica de um sonho. De um ambiente social formal, ela passa para um caminho rochoso, interage brevemente com um homem que parece absorto em seus próprios pensamentos, e encontra outras versões de si mesma, deitadas na areia ou jogando xadrez. O filme dispensa uma narrativa convencional. Em seu lugar, oferece uma psicogeografia, onde o deslocamento físico da personagem através de espaços incompatíveis representa uma busca interna por identidade. Cada novo ambiente é um fragmento do mundo exterior que ela deve atravessar para, talvez, entender algo sobre o seu próprio lugar.

A obra opera sob uma premissa que ecoa o pensamento de Heráclito sobre o fluxo constante: a identidade não é uma entidade fixa, mas um processo contínuo de vir a ser, moldado pela interação com o ambiente. Deren não constrói uma personagem com um arco dramático, mas sim visualiza um estado de ser. A sua performance é fundamental; seu corpo é o nexo que conecta os mundos, seja rastejando, correndo ou observando. A câmera não apenas registra, mas participa dessa exploração, utilizando justaposições e uma montagem associativa para criar uma gramática visual particular, que se tornaria uma base para o cinema experimental norte-americano. As ações da protagonista não geram consequências lógicas, mas sim abrem portais para novas percepções.

Em um momento crucial, ela se depara com um jogo de xadrez na praia. As peças são movidas pelas ondas. Ela observa, depois intervém, pegando um peão branco e fugindo com ele pela areia, subindo dunas. Este ato final não oferece uma resolução, mas sim uma afirmação. Ao tomar uma peça do jogo, ela parece reivindicar um elemento para si, uma pequena parte de agência em um universo de forças indiferentes, sejam elas as ondas do mar ou as convenções de um jantar. ‘Em Terra’ permanece um estudo poderoso sobre a subjetividade, um poema cinematográfico que articula a complexa relação entre o eu e o mundo sem a necessidade de uma única palavra.

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