Marco Martins, em ‘Alice’, nos lança em um mergulho sufocante na espiral de um pai, Mário, cuja filha desaparece. O filme não se contenta com a premissa de suspense tradicional. Em vez disso, ele esmiúça a angústia visceral da perda, o desespero que corrói a alma e a busca frenética por um fio de esperança em meio à devastação. O que se desenrola não é um thriller investigativo, mas um estudo de personagem brutalmente honesto sobre a fragilidade humana diante do abismo da ausência.
Mário, interpretado com intensidade por Nuno Lopes, abandona o trabalho, negligencia a esposa e se lança numa jornada obsessiva pelas ruas de Lisboa, colando cartazes com o rosto de Alice. Cada beco, cada esquina, cada rosto desconhecido se torna um potencial indício, uma promessa vã de reencontro. A cidade, outrora familiar, se transforma num território hostil, povoado por sombras e ecos da menina perdida.
O filme evita o melodrama fácil. A dor é palpável, mas internalizada, manifesta em gestos bruscos, olhares perdidos e explosões de raiva contida. A câmera de Martins acompanha Mário de perto, capturando cada nuance de seu sofrimento, sua crescente alienação e a lenta erosão de sua sanidade. A busca por Alice se torna uma busca por si mesmo, uma tentativa desesperada de dar sentido a um universo que se tornou inexplicavelmente cruel.
A ausência de Alice é, paradoxalmente, a força motriz da narrativa. Ela não é apenas uma vítima, mas um catalisador que expõe as fissuras nas relações familiares e a incapacidade de lidar com a fragilidade da vida. A busca incansável de Mário, embora motivada pelo amor, assume contornos obsessivos, consumindo-o por completo e afastando-o daqueles que tentam oferecer apoio. A sua jornada evoca o conceito de “Angústia”, explorado por Kierkegaard. Mário é confrontado com a liberdade da escolha e a paralisia que advém da responsabilidade avassaladora.
‘Alice’ não oferece consolo nem soluções fáceis. O filme se apresenta como um retrato cru e desolador da dor, da obsessão e da fragilidade dos laços humanos. A direção de Marco Martins, aliada à atuação visceral de Nuno Lopes, constrói uma experiência cinematográfica intensa e perturbadora, que ressoa muito depois dos créditos finais. O filme deixa uma marca indelével, um lembrete da vulnerabilidade inerente à condição humana e da dificuldade de encontrar sentido quando a vida se desfaz em cacos.




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