Numa tarde sonolenta, a jovem Alice cede ao tédio e persegue um apressado Coelho Branco de colete e relógio de bolso até sua toca. O que se segue não é tanto uma queda, mas uma imersão em um universo subterrâneo regido por uma lógica própria e desconcertante. Nesta pioneira adaptação cinematográfica de 1903, assinada por Cecil M. Hepworth e Percy Stow, a jornada de Alice pelo País das Maravilhas é apresentada como uma sucessão de quadros vivos, uma coleção de vinhetas que capturam os momentos mais icônicos do clássico de Lewis Carroll. Vemos Alice encolher drasticamente após beber de um frasco misterioso, interagir com um servil lacaio-sapo, participar de um caótico chá com o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março, e por fim, enfrentar a fúria irracional da Rainha de Copas e seu bizarro cortejo de cartas de baralho.
Lançado quando o cinema ainda buscava sua linguagem, este filme representa um esforço notável do cinema britânico para traduzir o surrealismo literário em imagens em movimento. Com uma duração que hoje nos parece curta, a produção condensa o romance numa experiência essencialmente visual, onde o encanto reside menos na coesão narrativa e mais na audácia de seus efeitos. A superimposição para criar o sorriso etéreo do Gato de Cheshire ou as manipulações de câmera para simular o crescimento e o encolhimento de Alice eram proezas técnicas para a época, funcionando como o principal atrativo para uma audiência fascinada com o potencial da nova arte. A obra opera como um espetáculo de ilusionismo, priorizando a demonstração do que a câmera podia fazer em detrimento de um desenvolvimento profundo dos personagens ou da trama.
A estrutura fragmentada da obra, com suas cenas que parecem desconectadas e personagens que surgem sem aviso prévio, acaba por tocar em uma ideia fundamental de solipsismo, onde a realidade percebida é a única realidade existente. O País das Maravilhas funciona não como um lugar geográfico, mas como uma manifestação externa da consciência flutuante e onírica de Alice. A artificialidade dos cenários pintados e a teatralidade das atuações reforçam essa sensação; não estamos vendo um mundo real, mas sim a projeção de um mundo interior, com suas próprias regras e caprichos. A limitação técnica do cinema primitivo, em vez de prejudicar, serve para amplificar a natureza fantástica e subjetiva da experiência da personagem principal.
Assistir a esta versão de ‘Alice no País das Maravilhas’ hoje é um ato de arqueologia cinematográfica. É observar o nascimento de um gênero e a coragem de cineastas que, com recursos mínimos, se propuseram a visualizar o impossível. A produção estabelece um precedente para o filme de fantasia, demonstrando que o cinema era o meio ideal para explorar os domínios do subconsciente e do sonho. Mais do que um simples conto, o filme de Hepworth e Stow é um documento valioso sobre a ambição e a inventividade que marcaram os primeiros passos da sétima arte, um vislumbre de um tempo em que cada fotograma era uma descoberta.









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