Numa mansão de pedra decadente, perdida algures na paisagem chuvosa do Noroeste Pacífico, um músico chamado Blake vagueia como uma assombração. Interpretado por Michael Pitt com uma dedicação física impressionante, ele é o epicentro de um universo em colapso silencioso. Veste roupas de mulher, murmura fragmentos de pensamentos e canções, e move-se por quartos repletos de ecos e lixo com a lentidão de quem já não pertence ao tempo cronológico. O sucesso que o persegue do lado de fora dos portões — manifestado em telefonemas ignorados, amigos e aproveitadores que flutuam pela casa como satélites indiferentes — é apenas um ruído distante. Gus Van Sant filma estes momentos não como um prelúdio para a tragédia, mas como a própria tragédia em sua forma mais crua e antiespetacular: o tédio, a repetição e o isolamento profundo que antecedem o fim.
Parte final da informal “Trilogia da Morte” de Van Sant, o filme recusa deliberadamente a estrutura de uma biografia ou a psicologia explicativa. Em vez de investigar as causas que levaram a figura, vagamente inspirada em Kurt Cobain, a este ponto, a câmera de Harris Savides observa com uma distância clínica e paciente. A narrativa é fragmentada, os longos planos-sequência seguem Blake em suas andanças aparentemente sem propósito, capturando a textura da sua alienação. A obra opera quase como uma aplicação do conceito heideggeriano de Ser-para-a-morte; a existência do protagonista no ecrã não é um caminho para o fim, mas uma constante manifestação da sua própria finitude. Sua presença é inteiramente definida pela iminência da sua ausência. O som ambiente, a natureza que invade a casa e os acordes dissonantes de uma guitarra são tão protagonistas quanto os diálogos esparsos, criando uma experiência sensorial que submerge o espectador no estado mental e físico de Blake.
O resultado é um estudo sobre a desintegração, despido de qualquer romantismo. Van Sant não procura motivos ou culpados, mas sim o retrato de uma atmosfera, a documentação de um estado de ser. A celebridade é aqui apresentada não como um privilégio, mas como um catalisador para uma solidão terminal, onde a comunicação se torna impossível e o corpo é a última fronteira de uma identidade em dissolução. A força de ‘Últimos Dias’ reside precisamente no que ele omite: as explicações, os confrontos dramáticos, a catarse. O que fica é a imagem persistente de um homem a afastar-se de tudo, inclusive de si mesmo, num dos retratos mais honestos e desconfortáveis sobre o peso da fama já concebidos pelo cinema independente americano.









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