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Filme: "Epidemic" (1987), Lars von Trier

Filme: “Epidemic” (1987), Lars von Trier

Em Epidemic, dois cineastas escrevem um roteiro sobre uma praga, mas a ficção começa a se manifestar em sua realidade, transformando a criação artística em um ato de contágio.


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Em Epidemic, Lars von Trier e o seu colaborador habitual, Niels Vørsel, interpretam versões de si mesmos, dois argumentistas em Copenhaga que, após perderem o seu único manuscrito num acidente informático, têm apenas cinco dias para entregar um novo projeto a um produtor. A ideia que surge é um filme de época sobre uma praga devastadora na Europa. O seu protagonista seria um médico idealista, Dr. Mesmer, que deixa a segurança da sua cidade para viajar até ao epicentro da doença, determinado a ajudar as vítimas. A narrativa acompanha, em paralelo, o processo de criação destes dois cineastas e os fragmentos em 16mm do filme que eles imaginam, criando um constante diálogo entre a ficção que escrevem e a realidade que habitam.

O que começa como um exercício criativo gradualmente assume contornos inquietantes. Enquanto von Trier e Vørsel viajam pela Europa para pesquisar locais e absorver a atmosfera para o seu argumento, uma doença real, de natureza desconhecida e subtil, parece emergir à sua volta. A câmera, muitas vezes operada pelo próprio von Trier, captura estas viagens com uma estética crua, quase documental, que contrasta com as cenas estilizadas do filme-dentro-do-filme. A linha que separa o ato de escrever sobre uma epidemia e o facto de, talvez, estar a viver uma torna-se cada vez mais porosa. O desenvolvimento do argumento não parece apenas descrever uma praga, mas, de alguma forma, invocá-la para o mundo tangível dos seus criadores.

Aqui, o filme deixa de ser apenas sobre o processo cinematográfico e passa a explorar a própria natureza da criação como um ato de contágio. A obra opera quase como um simulacro, no sentido em que a representação da epidemia no argumento começa a gerar uma realidade própria, indistinguível do original que nunca existiu. A ficção não imita a vida; ela a precede e a formata. Von Trier investiga a responsabilidade do artista, questionando se a obsessão em retratar o sofrimento não acaba por se tornar uma forma de o propagar. A doença no filme é tanto um agente biológico como uma metáfora para a disseminação de ideias, do medo e da própria arte, que se espalha de mente em mente como um vírus.

Esta estrutura dual culmina numa sequência final de jantar, onde os dois níveis da narrativa colidem de forma definitiva e perturbadora. Durante uma sessão de hipnose, o que era apenas uma história no papel manifesta-se fisicamente, dissolvendo por completo a barreira entre o criador e a sua criação. O filme não oferece uma explicação clara, preferindo deixar a ambiguidade pairar como uma febre. A sua conclusão sugere que a tentativa de controlar e dar forma ao caos, seja através da medicina ou da arte, pode ser o gatilho para a sua manifestação mais virulenta.

Como a segunda peça da Trilogia Europa, situada entre O Elemento do Crime e Europa, Epidemic é um trabalho fundamental para compreender a evolução das obsessões temáticas e estilísticas de Lars von Trier. É um filme de baixo orçamento que transforma as suas limitações em força, utilizando a sua aparência tosca para questionar a própria veracidade da imagem cinematográfica. Mais do que uma história sobre uma praga, é um exame clínico sobre o poder e o perigo inerentes ao ato de contar histórias, onde a imaginação se revela como a mais imprevisível e potente das doenças.


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