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Filme: "Fuses" (1967), Carolee Schneemann

Filme: “Fuses” (1967), Carolee Schneemann

Fuses é um filme autobiográfico sobre a intimidade sexual da artista Carolee Schneemann. Neste experimento radical, a própria película é pintada e alterada, fundindo o corpo com a materialidade do cinema.


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Carolee Schneemann posiciona a sua câmara de 16mm no centro da sua própria vida doméstica e afetiva, criando em ‘Fuses’ um registro de intimidade sexual com o seu parceiro, o compositor James Tenney. O filme, filmado ao longo de vários anos na década de 1960, documenta o casal em seu apartamento em Nova Iorque, com a presença constante e impassível da sua gata, Kitch, que observa as cenas com uma naturalidade desconcertante. Não há roteiro ou encenação no sentido tradicional. O que se desenrola é um fluxo de imagens que capturam o sexo, o carinho e a coexistência de dois corpos em um espaço privado, transformando o ato autobiográfico em matéria-prima para uma exploração visual radical. A obra é um diário filmado que recusa qualquer verniz de romantismo idealizado ou de exploração pornográfica, optando por uma crueza que é ao mesmo tempo terna e visceral.

A singularidade de ‘Fuses’ reside menos no que mostra e mais em como o mostra. Schneemann trata a própria película de celuloide como uma extensão do seu corpo e da sua pintura. As imagens são deliberadamente alteradas, sobrepostas, riscadas, queimadas com ácido e pintadas diretamente sobre os fotogramas. Essa intervenção manual e pictórica cria uma textura visual densa e pulsante. As cores saturadas, as distorções e as colagens de imagens fundem a representação do ato sexual com o próprio meio físico do filme. A pele dos amantes se mescla com a emulsão do filme, o movimento dos corpos ecoa nos arranhões e nas manchas de tinta. A materialidade do cinema é posta em primeiro plano, fazendo com que a experiência de assistir ao filme seja tátil, quase sinestésica.

Ao controlar a câmara, Schneemann efetua uma alteração fundamental na dinâmica do olhar cinematográfico. A perspetiva é a sua, a de uma participante ativa que documenta o seu próprio prazer e a sua própria interação. O filme não objetifica o corpo feminino para um espectador externo; em vez disso, internaliza a câmara como um órgão participante da cena, um terceiro olho que pertence à mulher que está a ser filmada e que filma. Essa escolha subverte a gramática visual da representação da sexualidade feminina, propondo uma visão que parte de dentro da experiência, em vez de observá-la de fora. A presença de Kitch, a gata, acentua essa noção, funcionando como uma testemunha neutra, cuja aceitação natural do que ocorre normaliza a cena e a despoja de qualquer sensacionalismo.

Pode-se aproximar a obra de uma espécie de fenomenologia da percepção em celuloide, onde o ato de ver se confunde com o ato de sentir e de tocar. A distância entre sujeito e objeto, entre o cineasta e o filmado, colapsa. A câmara não é uma janela para uma realidade, mas uma superfície sensível que registra os impactos físicos e emocionais do momento. O corpo de Schneemann, o corpo de Tenney e o corpo do filme se tornam uma entidade única e interconectada. ‘Fuses’ apresenta, assim, não uma imagem da intimidade, mas a própria inscrição física dessa intimidade sobre um meio que é, ele mesmo, físico e vulnerável a marcas e transformações.

O filme delineou um território para gerações futuras de artistas que trabalham com o corpo, a autobiografia e a crítica das formas de representação. Ao trazer a sua vida privada para a esfera da arte de vanguarda, Schneemann não estava simplesmente a partilhar um momento pessoal; estava a argumentar que o doméstico e o erótico são espaços legítimos para a produção artística e a investigação formal. A fusão do título refere-se a essa união indissolúvel entre a vida e a arte, o sexo e a pintura, o corpo e o cinema. O resultado é um documento complexo que opera simultaneamente como um retrato de um amor, um manifesto sobre o olhar feminino e um experimento radical sobre as potencialidades materiais do cinema.


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