Uma trindade de mestres do cinema europeu mergulha no universo macabro de Edgar Allan Poe, mas o resultado é menos uma antologia de terror e mais um fascinante tríptico sobre a desintegração psicológica. Histórias Extraordinárias reúne as visões distintas de Roger Vadim, Louis Malle e Federico Fellini, cada um se apropriando de um conto de Poe para construir um pesadelo particular, filtrado pelas estéticas vibrantes e inquietas do final da década de 1960. A obra funciona como um documento de seu tempo, onde o gótico americano encontra a crise existencial e a explosão visual do velho continente.
O primeiro segmento, “Metzengerstein”, sob a direção de Roger Vadim, é uma fantasia pop e erótica. Jane Fonda interpreta a Condessa Frederique, uma aristocrata cruel e hedonista que, após causar a morte de seu primo e rival, se vê obcecada por um enigmático cavalo negro que surge misteriosamente em suas propriedades. Vadim troca o suspense sombrio de Poe por uma paleta de cores saturadas, figurinos extravagantes e uma sensualidade que beira o kitsch. A narrativa se desenrola menos como um conto de fantasmas e mais como uma fábula sobre o narcisismo e a retribuição cármica, onde a paixão destrutiva da condessa é projetada na figura animal, um símbolo de seu próprio desejo indomável e de sua culpa inescapável.
Na sequência, Louis Malle oferece uma abordagem drasticamente diferente com “William Wilson”. Alain Delon encarna o personagem-título, um homem sádico cuja vida, desde a infância, é assombrada pela presença de um sósia idêntico. Este duplo, porém, age como sua bússola moral, intervindo para frustrar cada um de seus atos de crueldade. Malle constrói um thriller psicológico contido e gélido, focado na tensão interna do protagonista. Aqui, a ideia do doppelgänger é explorada não como um fantasma, mas como uma manifestação externa da consciência, aquela parte de nós que não podemos silenciar ou enganar. A luta de Wilson contra seu duplo é, na verdade, uma guerra contra si mesmo, uma batalha perdida contra a própria natureza que ele insiste em corromper. A direção precisa de Malle torna o confronto final um dos pontos altos da antologia.
Por fim, o filme explode em um delírio operístico com “Toby Dammit”, a contribuição de Federico Fellini. Considerado por muitos o ápice da obra, o segmento acompanha um ator britânico decadente e alcoólatra, interpretado por um Terence Stamp magnético, que chega a Roma para participar do que lhe venderam como o “primeiro faroeste católico”. Sua única motivação é o pagamento prometido: uma Ferrari. Fellini abandona qualquer pretensão de fidelidade narrativa para criar uma descida febril ao inferno da fama, um circo midiático grotesco povoado por figuras caricatas e cenários surreais. É uma crítica feroz e barroca à cultura da celebridade, à vacuidade da indústria do entretenimento e à alienação do artista. A câmera de Fellini não observa, ela participa do caos, transformando a jornada de Toby por Roma em uma odisséia alucinante em busca de uma libertação que talvez só a morte, representada por uma sinistra menina com uma bola branca, possa oferecer.
Vistos em conjunto, os três episódios de Histórias Extraordinárias revelam mais sobre seus diretores do que sobre Edgar Allan Poe. A obra expõe como uma mesma fonte literária pode ser refratada através de sensibilidades artísticas radicalmente distintas. Vadim usa Poe como pretexto para sua exploração estética do erotismo e do excesso. Malle o utiliza para um estudo clínico e sóbrio da dualidade humana. Fellini o transforma em matéria-prima para seu espetáculo pessoal, um carnaval de ansiedades modernas e visões apocalípticas. O resultado é desigual, mas nunca desinteressante, um experimento cinematográfico que captura a essência da obsessão, da culpa e da decadência que permeiam os contos originais, traduzindo-os para uma linguagem audiovisual única e irrepetível.




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