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Filme: "Les Unwanted de Europa" (2018), Fabrizio Ferraro

Filme: “Les Unwanted de Europa” (2018), Fabrizio Ferraro

O filme retrata a fuga do filósofo Walter Benjamin pelos Pirineus em 1940. Em preto e branco, a obra é uma jornada sobre a exaustão física e a luta pela sobrevivência do pensamento diante do nazismo.


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Nos Pirineus de 1940, uma fronteira não é apenas uma linha no mapa, mas uma barreira física e existencial. É neste terreno inóspito que Fabrizio Ferraro situa a jornada de ‘Les Unwanted de Europa’. O filme acompanha os últimos dias do filósofo e crítico alemão Walter Benjamin, guiado por Lisa Fittko, na sua tentativa desesperada de atravessar a pé a fronteira franco-espanhola em Portbou, fugindo do avanço do nazismo. A narrativa, despojada de artifícios dramáticos, concentra-se na fisicalidade da travessia: o som do vento, o ruído dos passos sobre as pedras, a respiração ofegante de corpos levados ao limite. É uma coreografia da exaustão, onde cada passo é um ato de afirmação perante o apagamento iminente.

Filmado num preto e branco de alto contraste que sublinha a dureza da paisagem, o trabalho de Ferraro transforma as montanhas num personagem central. As rochas, a vegetação rasteira e o céu cinzento não são um mero cenário para o drama humano, mas sim a própria substância da experiência. O diretor opta por uma temporalidade dilatada, forçando o espectador a sentir o peso do tempo e do espaço, a partilhar a fadiga e a incerteza dos viajantes. O diálogo é escasso, muitas vezes retirado dos próprios escritos de Benjamin, transformando o filme numa meditação ambulante sobre história, memória e a fragilidade do pensamento num mundo que colapsa. O exílio aqui é uma condição física, palpável, sentida nos músculos e na alma.

O que poderia ser um simples relato biográfico ganha uma dimensão conceitual profunda. A caminhada de Benjamin pelos Pirineus torna-se a encarnação de sua própria filosofia, particularmente a ideia do Anjo da História. Como o anjo de Paul Klee que Benjamin descreve, os personagens são impelidos para o futuro por uma tempestade que chamamos de progresso, enquanto olham para trás, para o campo de ruínas que é o passado. Cada passo em direção à suposta segurança de Espanha é também um olhar sobre a catástrofe deixada para trás na Europa. O filme não ilustra essa ideia; ele a incorpora, fazendo da própria cinematografia um ato de testemunho melancólico e persistente.

As atuações seguem a mesma lógica de contenção e precisão. Não há explosões emocionais, apenas a representação silenciosa de uma dignidade que se recusa a ceder. Vemos o peso, não apenas da famosa mala preta que Benjamin carregava, supostamente contendo seu último manuscrito, mas o peso de uma tradição intelectual inteira sendo transportada através de um terreno hostil. ‘Les Unwanted de Europa’ é, portanto, um ato sobre a sobrevivência das ideias. O filme documenta o esforço monumental necessário para salvar um pensamento, para garantir que uma voz não seja silenciada pela brutalidade da história.

Fabrizio Ferraro cria uma obra que se posiciona firmemente contra a espetacularização da violência e do sofrimento. Ao focar no gesto mínimo, na perseverança silenciosa e na paisagem que testemunha tudo, o filme oferece uma análise poderosa sobre a condição do refugiado e do intelectual em tempos de crise. É um cinema tátil, que exige paciência e entrega, mas que recompensa com uma compreensão mais profunda não só de um momento histórico específico, mas da própria natureza do deslocamento e da busca por um lugar no mundo. Um registro sóbrio e potente sobre a fuga que definiu um século.


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