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Filme: "O Abominável Dr. Phibes" (1971), Robert Fuest

Filme: “O Abominável Dr. Phibes” (1971), Robert Fuest

Neste clássico do horror, um vingativo Dr. Phibes transforma os assassinatos dos médicos de sua esposa em uma obra de arte macabra, inspirada nas dez pragas bíblicas.


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Em uma Londres estilizada dos anos 1920, uma série de mortes desconcertantes começa a assombrar a elite médica da cidade. As fatalidades são tão bizarras quanto criativas, desafiando a lógica da Scotland Yard e do pragmático Inspetor Trout. A narrativa se desenrola a partir de uma premissa de retaliação elevada a uma forma de arte macabra. O Doutor Anton Phibes, um renomado organista e teólogo tido como morto após um acidente de carro, ressurge para orquestrar uma vingança contra a equipe de nove cirurgiões que ele julga responsáveis pela morte de sua amada esposa na mesa de operação. Incapaz de falar e com o rosto desfigurado, Phibes, interpretado com uma grandiosidade silenciosa por Vincent Price, comunica-se apenas através de um gramofone conectado à sua laringe, transformando sua dor em um espetáculo fúnebre.

A genialidade perversa de Phibes reside em seu método. Ele baseia cada assassinato nas dez pragas bíblicas que assolaram o Egito, conforme descrito no Antigo Testamento. A estrutura do roteiro segue essa contagem regressiva teológica, com cada morte superando a anterior em inventividade e horror visual. Uma vítima é atacada por morcegos, outra sucumbe a um granizo lançado por uma catapulta, e uma terceira tem a cabeça esmagada por uma máscara que se aperta progressivamente. Robert Fuest não se detém no gore explícito, preferindo focar na elegância sinistra dos preparativos e na ironia cruel do resultado. Enquanto o Inspetor Trout corre contra o tempo, juntando as peças do quebra-cabeça teológico, Phibes e sua enigmática assistente, Vulnavia, preparam o próximo ato de seu teatro da crueldade.

O que eleva ‘O Abominável Dr. Phibes’ para além de um simples filme de terror de vingança é sua identidade visual inconfundível. A direção de arte é um triunfo do Art Déco, criando um contraste deliberado entre a beleza opulenta dos cenários e a natureza grotesca dos crimes. O covil de Phibes é uma obra-prima de design, completo com uma orquestra de autômatos chamada Dr. Phibes’ Clockwork Wizards, estátuas de cera e uma paleta de cores vibrantes que parece saída de uma revista de design da época. Essa estética impecável transforma a violência em algo performático e distanciado. Fuest constrói um mundo onde a morte não é apenas um fim, mas um evento coreografado, uma instalação de arte mórbida concebida por uma mente obcecada pela simetria e pelo simbolismo.

A jornada de Phibes pode ser interpretada quase como um exercício de solipsismo estético, onde o mundo externo e suas vítimas existem apenas como tela para a projeção de sua dor e de sua visão artística. Ele não está apenas punindo; está criando um monumento à sua perda, um recital fúnebre onde cada nota é um corpo. Vincent Price, mesmo sob camadas de maquiagem e sem proferir uma única palavra audível com sua própria voz, domina a tela com seus gestos teatrais e um olhar que transmite uma melancolia profunda e uma determinação implacável. O humor negro permeia toda a obra, principalmente na caracterização da força policial, cujos membros são retratados com uma inépcia que acentua ainda mais a inteligência e o controle de Phibes sobre a situação.

No final, o filme se estabelece como uma peça única no cinema de gênero dos anos 70. Ele se afasta do gótico sombrio da Hammer Films e do realismo brutal que começava a surgir no cinema de horror americano, optando por um caminho de fantasia camp e sofisticação visual. É uma celebração do excesso, um estudo sobre como a dor pode ser transmutada em uma expressão artística obsessiva e mortal. A obra de Robert Fuest permanece como um fascinante documento sobre a interseção entre o belo e o horrível, provando que um plano de vingança pode ser, ao mesmo tempo, um ato de destruição e um gesto de criação suprema.


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