Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: "The Runaways - Garotas do Rock" (2010), Floria Sigismondi

Filme: “The Runaways – Garotas do Rock” (2010), Floria Sigismondi

The Runaways acompanha a formação da icônica banda de rock feminina, seguindo a jornada de Joan Jett e Cherie Currie em meio ao sucesso explosivo e ao lado brutal da indústria musical dos anos 70.


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

No meio da poeira ensolarada e do tédio suburbano de Los Angeles, em meados dos anos 70, duas adolescentes acendem o pavio de uma revolução musical movida a hormônios e guitarras. De um lado, Joan Jett, uma força da natureza com jaqueta de couro e uma determinação quase silenciosa de esculpir seu lugar no panteão do rock and roll, um espaço então hermeticamente masculino. Do outro, Cherie Currie, uma garota com o visual andrógino de David Bowie e uma vulnerabilidade pulsante sob a maquiagem, buscando uma forma de escape e identidade. O catalisador para a colisão desses dois mundos é o excêntrico e predatório produtor Kim Fowley, um manipulador que enxerga nelas não apenas talento, mas um produto explosivo: sexo, rebeldia adolescente e barulho, embalados como a primeira grande banda de rock formada inteiramente por garotas. Assim nasce The Runaways.

A diretora Floria Sigismondi, com sua vasta experiência em videoclipes, opta por não contar essa história através de uma estrutura biográfica convencional. Em vez disso, ela mergulha a audiência na estética sensorial da época. A sua câmera captura o brilho dos refletores, o suor que escorre nos palcos apertados, a fumaça de cigarro que paira em quartos de hotel baratos e a granulação de uma era pré-digital. A ascensão da banda é meteórica e caótica, impulsionada pelo hino “Cherry Bomb”, uma canção que é tanto uma celebração da sexualidade juvenil quanto a sua exploração comercial. Sigismondi não julga, ela apenas documenta a vertigem, o turbilhão de fama repentina que atinge cinco garotas despreparadas para a máquina industrial da música, que consome sua juventude como combustível.

O núcleo do filme reside na complexa dinâmica entre Joan, interpretada com uma intensidade contida por Kristen Stewart, e Cherie, vivida por uma Dakota Fanning que se desfaz em cena. A narrativa explora o conflito fundamental entre a busca de Joan por legitimidade musical e a persona de objeto de desejo imposta a Cherie. Enquanto Joan luta para ser levada a sério como guitarrista e compositora, Cherie é transformada em um ícone sexual, vestida em espartilhos e lingerie no palco, uma fantasia que rapidamente se torna uma prisão. Michael Shannon, como Kim Fowley, entrega uma performance magnética e grotesca, personificando a natureza exploradora da indústria, um mestre de cerimônias que oferece o sonho enquanto secretamente cobra a alma de suas pupilas.

Aqui, a análise pode se apoiar sutilmente no conceito sartreano de má-fé. Cherie Currie é progressivamente levada a viver uma existência inautêntica, negando seu próprio eu para performar a fantasia da “Cherry Bomb” criada por Fowley. Essa performance, inicialmente libertadora, torna-se a fonte de seu colapso, uma dissociação entre quem ela é e o que ela representa. Joan, por outro lado, trava uma batalha constante para preservar sua autenticidade. Sua rebelião não é performática; é a sua essência. Ela recusa os papéis que lhe são impostos, seja o de garota boazinha ou de objeto sexual, mantendo-se fiel ao seu projeto existencial de ser uma rockstar nos seus próprios termos. A tensão entre essas duas posturas é o que move a história para além de uma simples crônica de ascensão e queda.

As atuações de Stewart e Fanning são o pilar emocional da obra. Stewart captura a postura física, o olhar duro e a paixão crua de Jett, enquanto Fanning transmite com precisão a metamorfose de Currie, da timidez inicial ao desespero alimentado por drogas e exaustão. A inevitável implosão da banda é retratada não com melodrama, mas com um senso de fatalidade melancólica. O sucesso expõe as fissuras, as pressões internas e externas se tornam insuportáveis, e o sonho que as uniu acaba por despedaçá-las. A jornada, que começou com a promessa de liberdade, termina em quartos de hotel solitários e confrontos amargos, revelando o preço altíssimo cobrado pela fama precoce.

No final, ‘The Runaways – Garotas do Rock’ se revela menos uma biografia definitiva e mais um estudo de personagem imersivo e estilizado sobre um momento particular e inflamável da cultura pop. É uma crônica sobre a criação e a desintegração de um relâmpago engarrafado, examinando como a rebelião juvenil pode ser simultaneamente uma força genuína de expressão e um produto altamente comercializável. O filme documenta o nascimento de um ícone duradouro, Joan Jett, e a jornada de sobrevivência de outra, Cherie Currie, oferecendo um olhar cru e honesto sobre o mecanismo por trás do rock, onde a glória e o dano muitas vezes compartilham o mesmo palco.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading