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Filme: "Trás-os-Montes" (1976), António Reis, Margarida Cordeiro

Filme: “Trás-os-Montes” (1976), António Reis, Margarida Cordeiro

Descubra o filme Trás-os-Montes, um estudo etnográfico poético sobre a vida numa região isolada de Portugal. Uma imersão na beleza agreste e nos rituais ancestrais.


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Trás-os-Montes, a obra de António Reis e Margarida Cordeiro, emerge como um estudo etnográfico poético, destilado em imagens de uma região portuguesa isolada. Longe de uma narrativa convencional, o filme desdobra-se em fragmentos, capturando o quotidiano austero e a beleza agreste da paisagem. O espectador é imerso num mundo onde o tempo parece obedecer a um ritmo próprio, marcado pelas estações, pelos rituais ancestrais e pelas histórias transmitidas oralmente.

O filme evita a armadilha da representação folclórica. Reis e Cordeiro não buscam exotizar ou romantizar a vida em Trás-os-Montes. Em vez disso, oferecem um retrato honesto e multifacetado, onde a pobreza e a dificuldade coexistem com a dignidade e a sabedoria popular. A câmera, paciente e observadora, registra os rostos marcados pelo sol, os gestos lentos, as casas de pedra erguidas em meio aos campos áridos.

A força do filme reside na sua linguagem visual. A fotografia, de uma beleza crua e despojada, explora as nuances da luz natural, criando composições que remetem à pintura. Os diálogos, raros e concisos, são frequentemente substituídos por cantos e lamentos, que expressam a melancolia e a esperança do povo transmontano. A utilização de elementos simbólicos, como o lobo, a água e as ruínas, enriquece a narrativa, conferindo-lhe uma dimensão onírica e arquetípica.

Ao se distanciar de uma estrutura narrativa linear, Trás-os-Montes convida o espectador a uma experiência sensorial e contemplativa. O filme se aproxima de uma meditação sobre a condição humana e a relação entre o homem e a natureza. Ecoa a ideia de que o progresso material nem sempre equivale ao progresso espiritual, e que, por vezes, a verdadeira riqueza reside na simplicidade e na conexão com as raízes.

Trás-os-Montes não entrega mensagens fáceis, mas sim provoca reflexões profundas sobre identidade, memória e o sentido da vida. A obra permanece relevante como um documento valioso de uma cultura em transformação e como um exemplo de cinema que ousa romper com as convenções e explorar novas formas de expressão. A busca pela essência da existência, despojada das superficialidades da vida moderna, encontra em Trás-os-Montes um terreno fértil para questionamentos e a redescoberta de valores fundamentais.


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