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Filme: "As Sessões" (2012), Ben Lewin

Filme: “As Sessões” (2012), Ben Lewin

As Sessões retrata a história real de um homem paralisado que, aos 38 anos, contrata uma terapeuta sexual para perder a virgindade, em uma busca sensível e bem-humorada por intimidade e conexão.


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Baseado na vida do jornalista e poeta Mark O’Brien, ‘As Sessões’ documenta uma busca singular e profundamente humana: a de um homem que, aos 38 anos, decide que não quer mais morrer virgem. A premissa poderia facilmente descambar para a comédia grosseira ou para o melodrama, mas o diretor Ben Lewin navega por esse território com uma precisão e sensibilidade notáveis. Mark, interpretado por John Hawkes em uma performance de imensa fisicalidade contida, vive quase inteiramente confinado a um pulmão de aço, resultado da poliomielite que o atingiu na infância. Sua mente, no entanto, é afiada, irônica e cheia de um desejo latente por uma das experiências mais fundamentais da vida. O filme, portanto, se estabelece não como uma história sobre deficiência, mas como uma crônica sobre a autonomia do desejo.

A jornada de Mark se concretiza através de duas relações centrais. A primeira é com o Padre Brendan, um William H. Macy contido e compassivo, a quem Mark confessa sua intenção, buscando uma espécie de absolvição divina para contratar uma profissional do sexo. As conversas entre os dois são um dos pilares do filme, tratando da complexa relação entre corpo, fé e pecado com um humor desarmante e uma honestidade que foge de qualquer sermão. A segunda, e mais crucial, é com Cheryl Cohen-Greene, a terapeuta sexual interpretada por Helen Hunt. A dinâmica deles é o coração da narrativa. As sessões que dão título ao filme são encontros clínicos, regrados e com um objetivo claro, mas que inevitavelmente se tornam um espaço de vulnerabilidade e conexão para ambos. Lewin filma esses encontros com uma franqueza que nunca é exploratória, focando nos rostos, nas palavras e na estranha intimidade que surge de um arranjo tão pouco convencional.

O que eleva ‘As Sessões’ é seu tom. O roteiro, baseado nos próprios escritos de O’Brien, é permeado por uma inteligência ácida e uma autoironia que impedem qualquer traço de autopiedade. Mark não é um objeto de pena; ele é o agente de sua própria história, um homem com um plano pragmático para resolver uma questão pessoal. A direção de Lewin acompanha essa perspectiva, mantendo a câmera em um nível íntimo, mas respeitoso, fazendo do espectador um confidente em vez de um voyeur. A performance de Hawkes é um feito de sutileza, comunicando um universo de frustração, expectativa e alegria apenas com os músculos do rosto e o timbre da voz. Helen Hunt, por sua vez, constrói uma personagem que é profissional e empática, uma mulher que compreende a linha tênue entre seu trabalho e o impacto emocional que ele causa, tanto em seus clientes quanto em si mesma.

Em um nível mais profundo, o filme opera como uma exploração prática do dualismo corpo e mente. Mark O’Brien personifica essa separação de forma extrema: sua consciência é vibrante, poética e curiosa, aprisionada em um corpo que não obedece. A busca pela experiência sexual é, em essência, um ato de reconciliação, uma tentativa de sua mente brilhante de reivindicar uma vivência para sua forma física. Não se trata apenas de sexo, mas do toque, do contato e da afirmação de que seu corpo, apesar de suas limitações, ainda é um veículo para a experiência e o prazer.

Ao final, ‘As Sessões’ se revela uma obra sobre a dignidade da vontade. É um olhar franco e surpreendentemente leve sobre como a intimidade pode ser negociada, aprendida e alcançada nas circunstâncias mais improváveis. Longe de buscar respostas universais sobre sexualidade ou deficiência, o filme se concentra em uma história particular, e é nessa especificidade que encontra sua força e seu apelo universal. É um trabalho que aborda o desejo humano em sua forma mais essencial: a necessidade de ser visto, tocado e reconhecido como um ser completo.


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