Ex Libris: The New York Public Library, de Frederick Wiseman, mergulha no funcionamento interno de uma das maiores instituições de conhecimento do mundo, mas longe dos clichês bibliotecários de silêncio e livros empoeirados. O documentário, com suas quase três horas e meia de duração, destrincha a complexidade da New York Public Library como um organismo vivo, pulsante, em constante diálogo com a cidade que a abriga.
Wiseman, conhecido por sua abordagem observacional e sem narração, nos conduz por reuniões de diretoria, onde se debatem orçamentos e estratégias de expansão digital, a programas comunitários em bairros carentes, onde a biblioteca se transforma em um espaço de aprendizado para crianças e imigrantes. A câmera captura desde a minúcia do trabalho dos bibliotecários, auxiliando pesquisadores em suas buscas, até eventos grandiosos com autores renomados, revelando a pluralidade de papéis que a instituição desempenha.
Mais do que um registro institucional, Ex Libris é um retrato da busca incessante por informação e conhecimento em uma sociedade cada vez mais polarizada e dominada por algoritmos. A biblioteca surge como um contraponto a essa lógica, um lugar onde o acesso à informação é um direito, não um privilégio, e onde o saber é construído coletivamente, através do diálogo e da troca de ideias. A obra de Wiseman evoca o conceito de *parrhesia*, a coragem de dizer a verdade, mesmo quando desconfortável, que a biblioteca, como espaço público, deve promover.
O filme não busca glorificar a instituição, nem minimizar seus desafios. Ao contrário, expõe suas contradições, seus dilemas e suas tentativas de se adaptar a um mundo em rápida transformação. Vemos os esforços para digitalizar o acervo, expandir o acesso online e atrair novos públicos, mas também as dificuldades financeiras, a burocracia e as tensões entre a tradição e a inovação.
Ex Libris é um filme sobre a importância da informação, da cultura e do conhecimento como pilares de uma sociedade democrática. Um olhar atento sobre o papel fundamental das bibliotecas no século XXI, em tempos de fake news e pós-verdade, quando a busca pela verdade se torna uma tarefa cada vez mais complexa e urgente. Uma ode à curiosidade humana e ao poder transformador da leitura.




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