Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: "La commare secca" (1962), Bernardo Bertolucci

Filme: “La commare secca” (1962), Bernardo Bertolucci

Uma prostituta é encontrada morta em um parque nos arredores de Roma, no início de uma manhã sufocante de verão. A polícia inicia uma investigação hesitante, mais por protocolo do que por real desejo de elucidar o caso.


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Uma prostituta é encontrada morta em um parque nos arredores de Roma, no início de uma manhã sufocante de verão. A polícia inicia uma investigação hesitante, mais por protocolo do que por real desejo de elucidar o caso. A narrativa se desenrola através de flashbacks fragmentados, apresentando um mosaico de personagens marginalizados que frequentavam o parque na noite anterior: um soldado desertor, um grupo de homossexuais em busca de diversão, um cafetão em busca de novas garotas, um velho pedinte, um casal desesperado por dinheiro. Cada um deles, sob a lente implacável de Bertolucci, é retratado em sua vulnerabilidade, em sua busca incessante por um mínimo de dignidade em meio à pobreza e à exploração.

“La commare secca”, a primeira obra de Bertolucci, já prenuncia os temas que marcariam sua filmografia: a sexualidade reprimida, a fragilidade da identidade, a crítica à burguesia e a fascinação pelo poder. O filme, com sua estrutura narrativa não linear e sua atmosfera opressiva, ecoa o trabalho de Pasolini, de quem Bertolucci foi assistente. A câmera acompanha os personagens em seus movimentos hesitantes, capturando a sordidez dos becos e a desesperança estampada em seus rostos. A trilha sonora, melancólica e dissonante, intensifica a sensação de angústia e solidão.

A investigação policial, na verdade, serve apenas como um pretexto para o exame da condição humana em um contexto de marginalização. O filme não se preocupa em resolver o mistério da morte da prostituta. O verdadeiro foco reside na exploração das vidas precárias e nas relações de poder que se estabelecem entre os personagens. Cada um deles, de alguma forma, é cúmplice da violência que permeia a sociedade. A ausência de um julgamento moral explícito permite ao espectador confrontar-se com a complexidade da realidade, sem respostas fáceis ou soluções simplistas.

Bertolucci, com sua estreia, já demonstrava uma maturidade impressionante na direção de atores e na construção de uma atmosfera densa e perturbadora. A fotografia em preto e branco, com seus contrastes marcados, contribui para a criação de um universo visual sombrio e opressivo. O filme, ao invés de apresentar uma crítica social óbvia, opta por uma abordagem mais sutil e ambígua, convidando o espectador a refletir sobre as causas da violência e da exclusão. “La commare secca” é um estudo sobre a natureza humana, sobre a capacidade de crueldade e a busca desesperada por um sentido em um mundo caótico. A obra, de certa forma, dialoga com a filosofia sartreana, evidenciando a liberdade radical do ser humano e a responsabilidade que advém dessa condição, mesmo em situações de extrema opressão. Cada personagem, mesmo o mais marginalizado, é livre para escolher seu caminho, ainda que essa escolha seja limitada pelas circunstâncias.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo