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O corpo renasce com o surgimento tardio do desejo em “Blackbird Blackbird Blackberry”

No filme de Elene Naveriani, a história de Etero se desenvolve em silêncio atento, onde cada detalhe do seu cotidiano permite entender como uma mulher descobre potência inesperada ao repensar o próprio corpo


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“Blackbird Blackbird Blackberry” é uma das obras recentes mais delicadas sobre uma vida que parecia já ter sido decidida. A diretora Elene Naveriani acompanha Etero, mulher de 48 anos em uma pequena vila georgiana, cuja rotina é dominada por um trabalho solitário, conversas curtas com conhecidos e a repetição quase ritual de pequenos gestos diários. Ela vive de modo econômico, sem expectativas exteriores e sem pressa, até o dia em que escorrega perto de uma ravina enquanto colhe amoras para preparar um bolo. A queda quase acontece, mas o que importa é a interrupção brusca do fluxo habitual: Eterno se vê, por um instante, como alguém que poderia ter desaparecido ali mesmo. Isso basta para inaugurar um deslocamento, não porque a cena tem caráter espetacular, mas porque ela compreende algo íntimo, quase subterrâneo, sobre o tempo que ainda lhe resta.

Logo depois desse susto, outro evento compõe o novo compasso. Um entregador chega à sua loja e, de forma inesperada, abre uma brecha para o desejo. A relação entre os dois se torna física e intensa, sempre reservada, sempre protegida do mundo ao redor. É um encontro que não busca validar juventude nem simular romance idílico; trata-se da descoberta tardia de uma energia que estava ali, porém adormecida. Aqui faz sentido mencionar um único conceito filosófico, o de potência em Aristóteles: algo que existe sem ainda ter tomado forma plena, aguardando condições mínimas para se realizar. Etero não muda de personalidade, não muda de valores, não faz promessas. Apenas percebe que havia uma força latente no corpo, tão natural quanto o amadurecimento das próprias amoras que colhia.

O filme se desenvolve respeitando esse ritmo interno. A câmera observa Etero com paciência e parece entender que a vida dela foi marcada por camadas profundas de silêncio. A morte da mãe quando ela ainda era bebê, a convivência dura com familiares abusivos, a adaptação a uma vila que pouco acolhe singularidades: tudo isso compõe seu passado sem que o roteiro transforme dor em espetáculo. O que se destaca é a forma como Etero se move, como fala pouco, como o corpo hesita, como reage à crescente suspeita de estar entrando na menopausa, e como observa com interesse o galão e o mil folhas que sempre come, quase como rituais de autoafirmação. A atuação de Eka Chavleishvili resolve metade do filme sozinha, porque ela não interpreta Etero para o público. Ela simplesmente existe dentro daqueles espaços.

Um dos méritos de Naveriani é construir a narrativa com uma textura visual que reforça essa jornada íntima. Há uma paleta de cores composta por ameixa, lilás, tons terrosos, verdes escuros. As casas são iluminadas por luz natural filtrada, as paisagens são recortadas por ravinas e caminhos estreitos. Tudo reforça uma atmosfera que combina melancolia moderada com um prazer recém-descoberto em estar viva. As cenas noturnas nunca são excessivas; as cenas diurnas não buscam exuberância. A diretora mantém o tom exato do que está sendo contado: uma vida discreta que, pela primeira vez, encontra espaço para uma espécie de renascimento.

O romance secreto com o entregador não é tratado como solução, nem como problema. Ele existe como impulso vital. Quando ele não está, Etero não volta ao marasmo de antes. Ela pensa no que viveu, observa o próprio corpo com curiosidade, considera o que pode acontecer caso um possível cisto nos ovários se confirme, mas nenhum desses elementos vira motor dramático. São fatos da vida, e a forma como ela convive com eles indica maturidade, pragmatismo e, ao mesmo tempo, uma abertura inédita para sentir o mundo de modo mais vibrante. A narrativa nunca recorre a artifícios. O humor discreto, às vezes cortado por pausas longas, cria uma temperatura constante que evita sentimentalismo, mas produz leveza genuína.

Naveriani molda a história como quem conhece bem o terreno em que pisa: não intelectualiza demais, não simplifica, não transforma a personagem em símbolo. O que interessa é a vivência de alguém que se acreditava definitivamente só, mas que recebe, quase sem perceber, a possibilidade de uma segunda vida. Não por um gesto grandioso, mas por uma série de detalhes que começam com o voo de um melro, passam por um amora madura e desembocam em um corpo que finalmente se permite sentir prazer.

Há também uma honestidade rara na forma como a diretora filma o desejo na meia-idade. Não há pudor artificial nem pressa em concluir nada. A narrativa entende que erotismo pode ser sereno, cotidiano, lento. Etero continua sendo ela mesma durante todo o processo, o que torna seu caminho convincente. Até a chuva que domina parte da segunda metade do filme acrescenta uma camada de mundo vivo ao seu percurso, como se a própria paisagem acompanhasse sua disposição recém-formada para existir sem se esconder.

“Blackbird Blackbird Blackberry” é, assim, um dos grandes filmes recentes sobre intimidade, amadurecimento e autoestima. Ele não força símbolos, não cria dilemas exagerados e não tenta emocionar o público através de atalhos narrativos. A força surge da atenção aos gestos pequenos, aos ruídos cotidianos, à simplicidade de um corpo que redescobre sensações. Etero não se torna outra pessoa, apenas encontra uma forma mais generosa de ocupar a própria vida.


Nota:

Avaliação: 5 de 5.

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