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Ninguém deve nada a ninguém (?)

Fico pensando em quando foi que a gente parou de pedir as coisas, tipo ligar num sábado de manhã pra alguém ajudar a descer um sofá


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Fico pensando em quando foi que a gente parou de pedir as coisas. Pedir mesmo, sem cerimônia, tipo ligar num sábado de manhã e perguntar se o outro podia ajudar a descer um sofá de três lugares por quatro andares sem elevador. O outro reclamava, xingava baixinho e aparecia mesmo assim, de bermuda e com fome, de olho na pizza que viria depois. Hoje a gente contrata um frete pelo aplicativo e manda mensagem pros amigos só pra marcar o brunch de domingo. Talvez seja mais prático, talvez seja até mais educado, mas alguma coisa ficou pelo caminho.

Acho que é a dívida. Falo daquela dívida pequena, quase invisível, de quem ficou te devendo uma depois que você buscou a pessoa no aeroporto às duas da manhã. Essa dívida nunca é cobrada, e justamente por isso amarra, porque fica ali, solta, esperando a vez de ser devolvida. Quando é devolvida abre outra, e assim a amizade vai se fazendo de favor em favor, de incômodo em incômodo, ao longo de anos. Pedir alguma coisa a alguém é dizer, sem dizer, que essa pessoa está perto o bastante para ser incomodada. Talvez seja um dos elogios mais bonitos que existem.

Agora tudo parece combinado com antecedência, com dia, hora, reserva e conta dividida no Pix antes mesmo de a sobremesa chegar, e cada um volta pra casa leve, quite, sem pendência nenhuma. O mercado, que nunca perde uma oportunidade, foi ocupando cada espaço que o favor deixou vazio. Hoje tem aplicativo pra carona, pra mudança, pra hospedagem, pra alguém passear com o cachorro enquanto você viaja. A gente trocou o incômodo pelo boleto e achou que tinha feito um bom negócio. Talvez tenha feito, até o dia em que o problema não cabe no cartão. Uma doença, um luto, uma noite em que você simplesmente não quer ficar sozinho, e aí você descobre que tem muita gente pra convidar e quase ninguém a quem pedir.

Tem também essa conversa de limites, que eu entendo, juro que entendo. Tem gente que abusa, tem apartamento minúsculo onde não cabe nem o próprio morador, tem gente tão cansada que mal dá conta da própria vida, e dizer não, nesses casos, é saúde. Só que em algum momento a palavra limite começou a servir pra tudo. Qualquer pedido passou a parecer invasão, qualquer favor virou um peso que ninguém tem obrigação de carregar. E é verdade, ninguém tem, só que a amizade sempre foi feita exatamente dessas coisas que ninguém tem obrigação de fazer.

Então fico com vontade de voltar a pedir, e de aceitar que me peçam. De ligar pra alguém e perguntar se posso dormir no sofá, de buscar alguém no aeroporto mesmo morrendo de sono, de ouvir um não sem fazer drama e de dizer sim mais vezes do que é confortável. O amigo do brunch é ótimo, aparece bem nas fotos e rende boas risadas. Mas quem carrega o sofá com você, reclamando a cada degrau, é quem vai atender o telefone quando a vida apertar. Uma amizade que nunca incomoda ninguém parece demais com uma assinatura de streaming, dessas que a gente cancela no primeiro mês em que não compensa.


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