A humanidade tem uma inerente propensão à violência e selvageria, sempre à espreita, esperando para emergir. Não é surpresa, portanto, que até os indivíduos mais estoicos possam sucumbir à sua natureza primitiva quando provocados. Adeus à compostura, adeus à paciência, e bem-vindo ao caos infantil.
A peça de Yasmina Reza, “O Deus da Carnificina”, reflete essa realidade. Inicialmente, dois casais de pais tentam lidar civilizadamente com a briga entre seus filhos. O filho de Alain e Annette Reille, Ferdinand, feriu Bruno, o filho de Michel e Veronique Vallon, causando-lhe danos físicos. A princípio, a situação é apenas a típica tensão doméstica de pais envolvidos em uma briga infantil. Nada fora do comum, mas rapidamente a situação se intensifica e, enquanto a história se desenrola, Reza aumenta gradualmente a tensão.

As discussões começam com as punições para Ferdinand e o pedido de desculpas a Bruno. Os estilos parentais entram em conflito, pois os Reilles são mais tolerantes com seu filho, enquanto os Vallons preferem uma abordagem mais punitiva. Em seguida, as famílias começam a discutir de quem é a culpa pela violência física, com os Reilles insistindo que Bruno provocou Ferdinand e os Vallons afirmando que Ferdinand não deveria ter recorrido à agressão. Essa dança verbal continua por algumas páginas, como um típico embate entre pais superprotetores.
Conforme a noite avança, as discussões se tornam cada vez mais irracionais, e eles perdem de vista o motivo original do encontro, transformando-se em verdadeiros bárbaros. Nenhum assunto é intocável, pois discutem crueldade contra animais, conflitos entre homens e mulheres, satisfação no trabalho, responsabilidade médica e outras questões totalmente desconectadas do motivo inicial da reunião. As lutas se desenrolam em diversas combinações: um contra um, dois contra dois, dois contra um e três contra um. E pensar que tudo isso começou por causa do estresse de Annette, que vomitou nos raros livros de Veronique.
O que torna a peça tão fascinante são os personagens e suas interações. Outros elementos que normalmente seriam fundamentais em outras obras desempenham papéis secundários aqui, dando lugar ao foco nos personagens. A simples briga entre os filhos se transforma em algo muito maior, tornando-se um reflexo da vida e dos conflitos parentais de cada um dos casais. O lar dos Vallons torna-se o palco onde as frustrações dos casais consigo mesmos, com seus cônjuges, filhos e o mundo todo se revelam. Sua fachada aparentemente pacífica desmorona com a ajuda do álcool, e a torrente que se segue é impiedosa e incontrolável.
“O Deus da Carnificina” é uma leitura cativante, com uma trama direta e uma peça de curta duração (apenas pouco mais de 150 páginas). Embora não seja uma história complexa, sua mensagem sobre a verdadeira natureza humana permanece clara. Mesmo as pessoas mais otimistas não podem negar completamente a natureza primitiva que nos constitui, afinal, somos seres animais por completo.
“O Deus da Carnificina”, Yasmina Reza
Editora Âyiné





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