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“Salò ou os 120 Dias de Sodoma” é escatologicamente absurdo

Filme é a chocante adaptação de Pier Paolo Pasolini do livro de Marquês de Sade


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“Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, último filme do diretor italiano Pier Paolo Pasolini, é uma adaptação chocante e controversa do livro “120 Dias de Sodoma” do Marquês de Sade, filósofo francês, digamos, obscuro. O filme se passa na República de Salò, um estado fantoche fascista durante a Segunda Guerra Mundial, e retrata quatro libertinos ricos que sequestram 18 jovens e os submetem a quatro meses de violência extrema, sadismo e abuso sexual.

Pasolini usa este cenário grotesco não como um “testamento” final da sua obra, mas como uma representação vívida do abuso de poder em um contexto fascista. Ele se concentra no fascismo em seu estágio terminal, caracterizado por um excesso de legislação e regulamentação e um espaço fechado protegido por metralhadoras. Para isso, utiliza de cenas gráficas, absurdamente explícitas, de estupro, escatologias e assassinatos.

O filme explora a ideia de que pode haver uma heterogeneidade fundamental entre os torturadores e suas vítimas, os senhores e os escravos, os dominantes e os dominados. Pasolini rejeita a ideia de que a linha divisória entre esses grupos é a linha stalinista que coloca a perversão no campo dos senhores e a norma inocente no campo das vítimas. Em vez disso, ele sugere que a verdadeira divisão está entre aqueles que estão dispostos a fazer o pior para apreender o que só pode escapar deles – o conhecimento do prazer do outro – e aqueles para quem essa questão não é um problema.

Pasolini acredita que o povo tem um acesso simples ao prazer que nada nem ninguém pode afetar. No entanto, os senhores, em sua busca desesperada para manter a ficção de seu desejo, convocam violentamente o corpo do povo para examinar seu segredo, supondo que ele tem um prazer intrínseco que deve ser regulado e alimentado. Em “Salò”, eles reencenam o espetáculo de seu fracasso de longa data, mas desta vez in vitro, chegando a destruir o próprio objeto de sua experimentação, a matéria-prima do filme.

A ideia central de Pasolini é que não há nada em comum entre algozes e vítimas, ou entre a alta burguesia e o povo. Ele acredita que o povo é totalmente indiferente ao prazer do senhor. Esta crença leva Pasolini a um desespero final: “Não há mais nada de alegre no sexo. Os jovens são feios e desesperados, mesquinhos ou derrotados. Hoje o sexo é a satisfação de uma obrigação social e não um prazer contra as obrigações sociais. E não posso nem ter ódio da burguesia agora, porque hoje no país em que moro todo mundo é burguês.” Esta declaração reflete a visão sombria de Pasolini de uma sociedade em que todos se tornaram burgueses e o prazer se tornou uma obrigação social, em vez de um ato de resistência contra as obrigações sociais.


“Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, Pier Paolo Pasolini

Disponível no Stremio

Avaliação: 4 de 5.

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