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Filme: “Salò, ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), Pier Paolo Pasolini

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Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, na efêmera República de Salò, um enclave fascista no norte da Itália, quatro libertinos no poder – um Duque, um Bispo, um Magistrado e um Presidente – selam um pacto para satisfazer as suas mais extremas fantasias. Eles sequestram nove rapazes e nove moças e os confinam numa mansão isolada, onde toda a vida passa a ser governada por um regulamento meticulosamente sádico. As vítimas são despojadas de suas identidades e submetidas a um regime de humilhação sistemática, abuso sexual e tortura psicológica, tudo orquestrado como um ritual formal e desapaixonado. O que se desenrola não é um caos desordenado, mas uma cerimônia fria e calculada da degradação humana.

A progressão da crueldade segue uma estrutura deliberada, inspirada nos círculos do Inferno de Dante. Após um Anteinferno que estabelece as regras do jogo, a narrativa avança pelo Círculo das Manias, onde as perversões sexuais são narradas e encenadas; pelo Círculo da Merda, focado na escatologia e na coprofagia; e, finalmente, pelo Círculo do Sangue, um clímax de tortura física observada à distância, através de binóculos. Em cada etapa, as ações são mediadas por contadoras de histórias, prostitutas mais velhas que narram contos depravados para inflamar a imaginação dos senhores e ditar os próximos atos de violência. A lei dentro da mansão é a da arbitrariedade absoluta, onde o corpo do outro é matéria-prima para o exercício do poder.

A obra de Pasolini aqui se afasta de uma simples crônica da perversão para se tornar uma alegoria precisa sobre a natureza do poder. O que está em jogo não é a psique dos agressores, mas a própria lógica do poder absoluto, que transforma seres humanos em coisas. É uma demonstração quase clínica do que Michel Foucault chamaria de biopoder: a soberania que não apenas decide sobre a morte, mas administra a vida em seus mínimos detalhes, transformando corpos em objetos de um sistema. O fascismo, para Pasolini, é o arquétipo desse poder, mas sua crítica se estende à sociedade de consumo, que ele via como uma nova forma de totalitarismo que padroniza e mercantiliza a existência.

A estética de Salò é uma de suas facetas mais desconcertantes. A cinematografia é formal, os enquadramentos são compostos com uma precisão pictórica e a câmera permanece frequentemente estática, registrando os horrores com uma serenidade gélida. Pasolini filma o abjeto com um distanciamento que impede a catarse ou a identificação, forçando uma postura intelectual diante do insuportável. A violência não é espetacularizada para gerar suspense ou excitação; ela é apresentada como um procedimento burocrático, uma consequência inevitável das regras estabelecidas. O filme funciona como o testamento final de Pasolini, uma alegação contundente sobre como qualquer sistema de poder, seja o fascismo histórico ou a lógica impessoal do mercado, opera através da instrumentalização e aniquilação do indivíduo.

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Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, na efêmera República de Salò, um enclave fascista no norte da Itália, quatro libertinos no poder – um Duque, um Bispo, um Magistrado e um Presidente – selam um pacto para satisfazer as suas mais extremas fantasias. Eles sequestram nove rapazes e nove moças e os confinam numa mansão isolada, onde toda a vida passa a ser governada por um regulamento meticulosamente sádico. As vítimas são despojadas de suas identidades e submetidas a um regime de humilhação sistemática, abuso sexual e tortura psicológica, tudo orquestrado como um ritual formal e desapaixonado. O que se desenrola não é um caos desordenado, mas uma cerimônia fria e calculada da degradação humana.

A progressão da crueldade segue uma estrutura deliberada, inspirada nos círculos do Inferno de Dante. Após um Anteinferno que estabelece as regras do jogo, a narrativa avança pelo Círculo das Manias, onde as perversões sexuais são narradas e encenadas; pelo Círculo da Merda, focado na escatologia e na coprofagia; e, finalmente, pelo Círculo do Sangue, um clímax de tortura física observada à distância, através de binóculos. Em cada etapa, as ações são mediadas por contadoras de histórias, prostitutas mais velhas que narram contos depravados para inflamar a imaginação dos senhores e ditar os próximos atos de violência. A lei dentro da mansão é a da arbitrariedade absoluta, onde o corpo do outro é matéria-prima para o exercício do poder.

A obra de Pasolini aqui se afasta de uma simples crônica da perversão para se tornar uma alegoria precisa sobre a natureza do poder. O que está em jogo não é a psique dos agressores, mas a própria lógica do poder absoluto, que transforma seres humanos em coisas. É uma demonstração quase clínica do que Michel Foucault chamaria de biopoder: a soberania que não apenas decide sobre a morte, mas administra a vida em seus mínimos detalhes, transformando corpos em objetos de um sistema. O fascismo, para Pasolini, é o arquétipo desse poder, mas sua crítica se estende à sociedade de consumo, que ele via como uma nova forma de totalitarismo que padroniza e mercantiliza a existência.

A estética de Salò é uma de suas facetas mais desconcertantes. A cinematografia é formal, os enquadramentos são compostos com uma precisão pictórica e a câmera permanece frequentemente estática, registrando os horrores com uma serenidade gélida. Pasolini filma o abjeto com um distanciamento que impede a catarse ou a identificação, forçando uma postura intelectual diante do insuportável. A violência não é espetacularizada para gerar suspense ou excitação; ela é apresentada como um procedimento burocrático, uma consequência inevitável das regras estabelecidas. O filme funciona como o testamento final de Pasolini, uma alegação contundente sobre como qualquer sistema de poder, seja o fascismo histórico ou a lógica impessoal do mercado, opera através da instrumentalização e aniquilação do indivíduo.

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