A história começa onde outra termina, no exato instante em que o filósofo Friedrich Nietzsche, em Turim, lança os braços ao redor do pescoço de um cavalo açoitado, antes de colapsar e mergulhar em uma década de silêncio. O Cavalo de Turim, obra anunciada como a derradeira de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, parte de uma pergunta simples e devastadora: o que aconteceu com o cavalo? O filme nos transporta para uma paisagem rural desolada, varrida por um vento incessante que parece carregar o peso do mundo. Ali, um cocheiro, a sua filha e o tal cavalo vivem uma existência reduzida aos seus gestos mais essenciais, um ciclo de repetição que constitui a única barreira contra o nada.
Ao longo de seis dias, a câmera de Fred Kelemen, em um preto e branco granulado e tátil, documenta essa rotina com uma paciência hipnótica. Acordar, vestir-se com dificuldade, buscar água no poço, comer uma única batata cozida, beber uma dose de pálinka. Cada ação é um ritual, executado em um silêncio que só é quebrado pelo uivo do vento e pelos ruídos do corpo e da matéria. Não há psicologia a ser decifrada, apenas a fisicalidade crua da sobrevivência. A narrativa, se é que se pode chamar assim, é impulsionada pela recusa. Um dia, o cavalo simplesmente para. Ele não se move, não come, não bebe. A engrenagem que mantinha a pequena e frágil ordem daquela vida começa a emperrar, e o universo dos personagens encolhe de forma implacável.
O longa-metragem não se ocupa em construir um drama convencional. Em vez disso, opera como uma espécie de Anti-Gênesis, uma crônica da desintegração. A recusa do cavalo é o primeiro sinal, seguido pelo poço que seca e por uma visita que traz notícias de um mundo exterior em colapso. O filme de Tarr e Hranitzky utiliza seus famosos planos-sequência não para exibir virtuosismo, mas para imergir o espectador na duração real do tempo, no peso de cada momento vazio. É um cinema sobre a exaustão, sobre o que resta quando até mesmo a vontade de persistir se esvai. A obra documenta o processo lento e metódico com que a luz, a água, o som e, por fim, a própria existência se extinguem, deixando apenas a escuridão e o silêncio.









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