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Filme: “Monstros” (1932), Tod Browning

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Nos bastidores empoeirados de um circo itinerante, onde a camaradagem é a única moeda de valor, a vida segue um código de honra próprio. É neste microcosmo que Hans, um anão de proporções aristocráticas, se apaixona perdidamente pela estonteante trapezista Cleópatra, uma figura de aparente perfeição física. Ignorando os avisos de sua noiva, Frieda, também anã, Hans é consumido por uma devoção que cega, enquanto Cleópatra, em conluio com o musculoso Hércules, enxerga no afeto dele apenas um interesse calculado na considerável herança que ele está prestes a receber. A tensão se constrói não naquilo que é dito, mas no que é observado pelos olhares atentos da comunidade de artistas, desde as gêmeas siamesas aos homens e mulheres sem membros, que formam uma família protetora e silenciosa.

O ponto de inflexão ocorre durante a sinistra cena do banquete de casamento, um ritual de iniciação onde a comunidade tenta acolher Cleópatra em seu meio. Ao som do cântico “Nós a aceitamos, uma de nós!”, eles lhe oferecem uma taça comunitária como símbolo de união. A reação de Cleópatra é de um desprezo visceral e etílico, ridicularizando a aparência e os costumes de seus novos “parentes”. Este ato de repulsa não é apenas um insulto; é a violação de um código sagrado, o rompimento de um pacto de aceitação que desencadeia uma resposta coletiva. A partir deste momento, a narrativa de romance tortuoso se desfaz para dar lugar a uma história de retribuição implacável, orquestrada por aqueles que foram publicamente humilhados.

A verdadeira deformidade em ‘Monstros’ não é uma questão de anatomia, mas de caráter. O filme articula, com uma clareza brutal, a ideia de Alteridade. A comunidade do circo, marginalizada pelo mundo exterior, estabelece uma fronteira ética própria, um sistema de valores onde a lealdade e o respeito mútuo são supremos. Cleópatra, ao violar este pacto, não é apenas expulsa; ela é redefinida pelos termos deles, tornando-se o Outro absoluto dentro daquela cosmologia. A decisão de Tod Browning de escalar artistas de circo reais para os papéis, em vez de atores com maquiagem, foi um ato de realismo cru que selou o destino comercial do filme na época e cimentou sua reputação como uma obra cinematográfica permanentemente perturbadora. Lançado em uma era pré-código de Hollywood, sua honestidade visual e temática chocou o público e efetivamente encerrou a carreira de seu diretor. O resultado é uma peça de cinema que, quase um século depois, ainda opera com uma eficiência desconcertante, uma crônica sobre pertencimento e as terríveis consequências de sua traição.

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Nos bastidores empoeirados de um circo itinerante, onde a camaradagem é a única moeda de valor, a vida segue um código de honra próprio. É neste microcosmo que Hans, um anão de proporções aristocráticas, se apaixona perdidamente pela estonteante trapezista Cleópatra, uma figura de aparente perfeição física. Ignorando os avisos de sua noiva, Frieda, também anã, Hans é consumido por uma devoção que cega, enquanto Cleópatra, em conluio com o musculoso Hércules, enxerga no afeto dele apenas um interesse calculado na considerável herança que ele está prestes a receber. A tensão se constrói não naquilo que é dito, mas no que é observado pelos olhares atentos da comunidade de artistas, desde as gêmeas siamesas aos homens e mulheres sem membros, que formam uma família protetora e silenciosa.

O ponto de inflexão ocorre durante a sinistra cena do banquete de casamento, um ritual de iniciação onde a comunidade tenta acolher Cleópatra em seu meio. Ao som do cântico “Nós a aceitamos, uma de nós!”, eles lhe oferecem uma taça comunitária como símbolo de união. A reação de Cleópatra é de um desprezo visceral e etílico, ridicularizando a aparência e os costumes de seus novos “parentes”. Este ato de repulsa não é apenas um insulto; é a violação de um código sagrado, o rompimento de um pacto de aceitação que desencadeia uma resposta coletiva. A partir deste momento, a narrativa de romance tortuoso se desfaz para dar lugar a uma história de retribuição implacável, orquestrada por aqueles que foram publicamente humilhados.

A verdadeira deformidade em ‘Monstros’ não é uma questão de anatomia, mas de caráter. O filme articula, com uma clareza brutal, a ideia de Alteridade. A comunidade do circo, marginalizada pelo mundo exterior, estabelece uma fronteira ética própria, um sistema de valores onde a lealdade e o respeito mútuo são supremos. Cleópatra, ao violar este pacto, não é apenas expulsa; ela é redefinida pelos termos deles, tornando-se o Outro absoluto dentro daquela cosmologia. A decisão de Tod Browning de escalar artistas de circo reais para os papéis, em vez de atores com maquiagem, foi um ato de realismo cru que selou o destino comercial do filme na época e cimentou sua reputação como uma obra cinematográfica permanentemente perturbadora. Lançado em uma era pré-código de Hollywood, sua honestidade visual e temática chocou o público e efetivamente encerrou a carreira de seu diretor. O resultado é uma peça de cinema que, quase um século depois, ainda opera com uma eficiência desconcertante, uma crônica sobre pertencimento e as terríveis consequências de sua traição.

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