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A dualidade humana é centralizada em “Swimming Pool”

Filme de François Ozon é sobre quando a ficção respira nos intervalos da realidade


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Em um vilarejo francês onde o sol parece dissolver as horas, uma piscina vazia aguarda. Não é apenas cenário, mas personagem silenciosa em Swimming Pool, filme no qual François Ozon costura tensão e sedução com a precisão de um ourives. Sarah Morton, escritora de romances policiais interpretada por Charlotte Rampling, busca refúgio criativo na casa de seu editor. Seus dias são metódicos, marcados pelo tique-taque de uma mente que domina enredos, mas não consegue escapar da própria aridez. Até que Julie(Ludivine Sagnier), filha selvagem do editor, invade o cenário como um furacão de carne e osso — ou seria de tinta e papel?

A dinâmica entre as duas é um duelo de antípodas: Sarah, com sua postura rígida e olhar calculista, personifica a razão aprisionada em convenções; Julie, nua e desinibida, é a incarnação do desejo sem freios. Ozon não as coloca em confronto direto, mas em coreografia. Aos poucos, a vigilância discreta de Sarah — espiando Julie pela janela, folheando seu diário — revela menos voyeurismo e mais reconhecimento. Há uma cena em que Sarah, após roubar segredos da jovem, senta-se à mesa de trabalho. Suas mãos, antes inertes, começam a dançar sobre o teclado. A escrita flui, contaminada pela promiscuidade alheia. É aqui que o filme transcende o thriller psicológico para questionar: até que ponto a criação artística é um ato de expropriação?

A piscina, inicialmente coberta por uma lona, transforma-se em metáfora orgânica. Quando descoberta, suas águas não são cristalinas, mas turvas, cheias de folhas mortas — como o inconsciente que Sarah tenta negar. Ozon constrói um jogo onde cada mergulho das personagens é também uma imersão em camadas da psique. A sequência noturna em que Sarah, após testemunhar um crime, arrasta um corpo sob a luz da lua é filmada com uma crueza que evita o melodrama. Seus movimentos são práticos, quase burocráticos, como se o assassinato fosse mais uma página a ser editada.

A ambiguidade do final — criticada por alguns como truque barato — é, na verdade, a chave do filme. Ao revelar que talvez tudo não passe de um manuscrito, Ozon não trai a narrativa, mas expõe a natureza da ficção: uma mentira que precisa ser vivida para ganhar verdade. A cena final, em que Sarah entrega o livro ao editor com um sorriso ambíguo, ecoa Nietzsche: “Precisamos da arte para não perecer pela verdade”. A arte aqui não é escape, mas confronto — um jogo perigoso entre Apolo e Dionísio, onde a ordem e o caos se alimentam mutuamente.

As atuações são impecáveis. Rampling domina a tela com uma contenção que faz de cada olhar um discurso. Sagnier, por sua vez, é fogo sem cinzas: sua sensualidade não é gratuita, mas arma de libertação. Juntas, elas tecem uma relação que oscila entre maternidade tóxica e rivalidade íntima. Ozon, com planos-sequência que respiram e uma trilha sonora minimalista, confirma seu dom para transformar espaços banais em arenas metafísicas.

O que pode incomodar o espectador é a pressa em resolver certas nuances — o estereótipo do francês hedonista versus o britânico reprimido poderia ser mais desconstruído. Mas até isso parece proposital, como se Ozon dissesse: clichês também são tijolos na construção de um romance.

Swimming Pool é um mergulho: a coragem de sujar as mãos na água escura de onde brotam as histórias. E, como Sarah, saímos do filme com algo roubado: uma pergunta que lateja, insistente, sobre onde termina a vida e começa a arte.


“Swimming Pool”, François Ozon

Mubi

Avaliação: 4 de 5.

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