Cultivando arte e cultura insurgentes


MELHOR LEITURA

“A Fábrica” captura a névoa existencial de quem vive para trabalhar — e trabalha sem saber por quê

Hiroko Oyamada explora a alienação no trabalho sob o capitalismo tardio, apresentando personagens presos em um sistema produtivo sem sentido

MELHOR LEITURA

“A Fábrica” captura a névoa existencial de quem vive para trabalhar — e trabalha sem saber por quê

Hiroko Oyamada explora a alienação no trabalho sob o capitalismo tardio, apresentando personagens presos em um sistema produtivo sem sentido


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Hiroko Oyamada parece tecer labirintos em seu romance de estreia A Fábrica. A autora japonesa constrói um universo onde a burocracia e o absurdo se fundem em uma narrativa que desconfortavelmente espelha a condição humana sob o capitalismo tardio. A obra é menos uma história convencional e mais um experimento literário que captura a névoa existencial de quem vive para trabalhar — e trabalha sem saber por quê.

A Fábrica em questão não é um lugar, mas todo um organismo. Um colosso industrial que engole cidades, funcionários e até a fauna local. Em suas entranhas, há restaurantes, hotéis, agências de viagem e até um santuário xintoísta. Tudo ali parece existir para sustentar a própria Fábrica, como se ela fosse um deus insaciável. Os personagens — Yoshiko, uma jovem que destrói documentos; seu irmão, um revisor de textos incompreensíveis; e Furufue, um biólogo de musgos — são recrutas involuntários nesse ecossistema. Suas vozes se alternam em capítulos que confundem tempo e identidade, como se a própria estrutura narrativa replicasse a desorientação de trabalhar em um lugar sem sentido.

Oyamada não desperdiça tempo explicando o que a Fábrica produz. A pergunta, aliás, é irrelevante. O que importa é o ritual: tarefas repetidas até a exaustão, reuniões sem agenda, projetos que nunca terminam — é desconcertante e angustiante não ver sentido no trabalho de tantos funcionários. Furufue, encarregado de cobrir o teto da Fábrica com musgo, passa anos coletando espécimes sem nunca concluir a obra. Sua função, descobre-se, não é realizar algo, mas ocupar um cargo. Enquanto isso, Yoshiko alimenta trituradores de papel com documentos que jamais leu, em um ciclo que a transforma em extensão da máquina. Oyamada expõe a farsa do trabalho “produtivo” em sociedades onde o emprego é um fim em si mesmo — um culto à ocupação constante, mesmo que vazia.

A prosa da autora, seca e deliberadamente monótona, combina perfeitamente com o tema. Parágrafos densos, sem diálogos demarcados, imitam a cadência de um dia de escritório: horas que se arrastam, interrompidas apenas por pausas para comer ou cochilar. A cadência, no entanto, não esconde os toques de humor negro da autora. Há, por exemplo, o “Forest Pantser”, figura folclórica que assalta funcionários puxando suas calças — um lembrete de que, mesmo no absurdo, há espaço para o ridículo. Já a fauna local — pássaros negros que não voam, roedores gigantes entupindo esgotos — funciona como metáfora viva da adaptação patológica. Como os humanos, esses animais aprenderam a existir dentro de regras que não fazem sentido, tornando-se parte do cenário disfuncional.

O tempo, em A Fábrica, escorre sem deixar marcas. Em uma cena crucial, Yoshiko pergunta a Furufue há quanto tempo ele trabalha ali. “Quinze anos”, ele responde, surpreso consigo mesmo. A revelação é um choque: até então, a narrativa sugeria meses. Oyamada mostra como a rotina dilui décadas em gestos repetidos, como se a vida fosse um arquivo esquecido em uma gaveta. A autora não condena seus personagens por essa submissão; ela os observa com uma frieza quase antropológica. Yoshiko, inicialmente revoltada com a futilidade de seu trabalho, acaba encontrando conforto na ausência de desafios. Seu irmão, envergonhado pelo emprego temporário, esconde-o como um vício. Furufue, o mais lúcido, questiona: “Por que não fugir?” — mas permanece, talvez por medo de descobrir que não há “fora” da Fábrica.

Há ecos de Kafka, é claro, mas Oyamada evita o tom opressivo de O Processo. Sua crítica é mais sutil, quase melancólica. A Fábrica não é um regime totalitário, mas uma armadilha consentida. Ela oferece segurança em troca de autonomia, um pacto que muitos aceitam sem ler as letras miúdas. Em um dos momentos mais pungentes, Yoshiko reflete: “A vida não tem relação com o trabalho, e o trabalho não influencia a vida. Eu achava que sim, mas agora vejo que não”. A frase sintetiza o cerne do livro: a cisão entre o que fazemos e quem somos, entre sobreviver e existir.

Numa era em que o debate sobre “trabalho significativo” colide com a precariedade econômica, a obra de Oyamada se apresenta contemporâneo demais. Ela não oferece soluções, aliás nem é a ambição do livro, mas abre uma fresta para enxergarmos a engrenagem que nos move. Afinal, quantos de nós, como os pássaros que observam a Fábrica, seguimos presos ao chão, esquecendo que as asas ainda estão lá — intocadas, à espera de um salto que talvez nunca ousemos dar?


“A Fábrica”, Hiroko Oyamada

Editora Todavia

Avaliação: 5 de 5.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading